segunda-feira, 23 de maio de 2011

Francisco Bosco: ele bate escanteio e vai para área cabecear

Conforme longamente prometido [eu apenas esperava por que a edição fosse recolhida das bancas], vai abaixo o perfil de Francisco Bosco que escrevi para a revista Go Where Rio, e que ficou, modestamente, bem bacana:

Aqui está Francisco Bosco, cara raríssimo: ao mesmo tempo pensador [rigoroso] e carioca, este oximoro geográfico quase incontornável!, jovem intelectual cujas ideias e questões parecem fluir com a mesma naturalidade [com o mesmo dinamismo] como as expressa; alguém capaz de alternar, sem afetação e em segundos, referências a Flaubert com a confissão de que acabara de assistir, horas antes da entrevista, a um filme dos Três Patetas. “Tenho um repertório de interesses multidisciplinar, ou, se preferir, indisciplinado” – diz, para então abrir um sorriso de João Bosco.

Sim, Francisco é filho de João, o famoso cantor e compositor, de quem já foi até parceiro. “Parei de fazer letra de música, segui caminhos diversos, mas, entre outras coisas bacanas, aquele período de parceria com meu pai reinventou nossa relação e nos aguçou afinidades. Somos muito próximos, amigos mesmo. Tenho profundo interesse pelo que ele pensa e fala e, nos últimos anos, acho que ele também por minhas ideias.”

Não resisto a chamá-lo de Rimbaud brasileiro – e isso, nada tragicamente, no melhor dos sentidos. Afinal, é impossível escrever sobre Francisco sem lhe admirar a precocidade; a fabulosa ânsia produtiva – uma corrida contra o [próprio] tempo. Quanto coisa já criou, caramba! – é o que me ocorre. Aos 34 anos, é um ex-letrista de música popular, e se permite, autor já de sete livros, a renegar três, os três primeiros, de poesia. “São obras muito ingênuas, que produzi aos 18, 19 anos” – avalia o hoje colunista de O Globo, que vem de lançar o quarto livro de ensaios, o excelente E livre seja este infortúnio [Azougue Editorial], título emprestado, não à toa, de um verso de Rimbaud. É também, pois, um ex-poeta, ao menos formalmente. Gosta, entretanto, que o vejam como um poeta que escreve conceitos: “Gosto de me ver – é um compromisso meu – numa situação artística permanente; aquele para quem nenhum lugar da realidade deve ser estranho”.

Eis Francisco Bosco: um artista, um artista pleno; alguém que não distingue vida e trabalho – “Vida de pensador não tem dentro e fora” – e que possui a qualidade dos grandes observadores, a mais simples, qual seja, a de observar-contemplar-examinar sempre, o tempo todo, sem esforço e sem precisar distanciar-se.

Ele transita – assim mesmo, sem complementos. Escreve – fala, pensa... – de um lugar de fronteira, em movimento. É um semiólogo; um mediador de discursos, não raro árbitro, porque, ora, há também os choques... Recorre, por exemplo, a uma perspectiva psicanalítica para tratar de canção popular; vale-se de literatura para discutir sexualidade – e por aí vai. “O que faço é uma teoria concreta, uma reflexão que seja ligada à vida. Não me interesso pelo que se afasta da realidade. Quero saber dos problemas, do que nos diz respeito, do que tem implicação cotidiana. Fujo desta overdose de transcendência. Não gosto de conceitos que não nos permitem remontar problemas” – esta última frase, chave para o universo de Francisco.

É um escritor de muitos recursos, um baita ensaísta, da invulgar estirpe dos que conjugam curiosidade e perfeccionismo, um perseguidor incansável de temas e de abordagens originais; mas que não depende da prosa para dar seu recado. Fala bem, muito bem, com clareza e uma notável capacidade de expor a construção do raciocínio, e se vale de recursos teatrais – pausas mais ou menos longas e gracejos de respiração – para pontuar o discurso. Pensador mais instigante de sua geração, é sempre didático e se lança – generoso – aos mais numerosos [e bem-humorados] exemplos para ilustrar uma ideia. Erudito, quer ser compreendido, entendido; quer ser acessível – e não mede esforços para tanto.
Com sucesso.

Encontrei-o no Instituto Moreira Salles, na Gávea, onde coordena, desde dezembro de 2009, a Rádio Batuta, web rádio que investiga, interpreta e divulga, por meio de programas temáticos, o acervo – cerca de 30 mil fonogramas – de música brasileira da casa. Era tarde de uma segunda-feira de verão inclemente e estávamos sob um céu em que não se contava nuvem. Francisco, porém, pontual e em boa forma [pratica pilates há sete anos e é assíduo dançarino de salão], apresentou-se de modo impecável, com visual moderno, detalhadamente despojado – e parecia trazer um ar-condicionado interior. Estava dedicado a nos deixar à vontade. Com êxito. Boa pinta, antecipou-se gentilmente ao fotógrafo para lhe pedir que explorasse o único ângulo – uma determinada posição – em que se considera fotogênico. Não era vaidade; antes o estabelecimento franco e camarada de uma cumplicidade, que de resto quebrava gelos.

Talvez que não seja exatamente um tímido. Não é. Há nele, contudo, uma constante discrição, uma reserva [moral] perene – algo incomum a esses tempos exibidos. Ou quiçá seja mesmo esta a atitude – a leveza – de um artista legítimo, a que não estamos acostumados. “Sou um cara anti-social e me acho sem-graça, incapaz dessa coisa nossa de papo-furado. À noite, entretanto, com meia dúzia de chopes, ou com uns uísques, fico adorável e carismático”.

É um homem de amigos, dos amigos, e diz que só se sente à vontade entre seus íntimos: “A amizade facilidade muito as coisas pra mim”. Casado com a escritora Antonia Pellegrino, com quem mora na Lagoa, é um apaixonado: “Não me sinto qualificado para falar de casamento de modo geral; não mesmo. Sou casado com a minha mulher. Simples assim. O casamento, por princípio, é uma instituição das piores. Mas há, porém, a minha mulher, e a minha mulher é extraordinária. Sou completamente admirado por ela. Acho que dei sorte. Com base em minha experiência privada, no entanto, se tivesse de propor algo sobre casamento, seria mais ou menos a seguinte questão: que mundo o outro possui e em que este mundo pode me ajudar a crescer?”

É preciso ler o e ouvir Francisco Bosco.

1 comentários:

Olga disse...

Você sabe que precisei "roubar" esta revista? Não consegui encontrá-la em nenhuma banca, nem do Centro nem da Tijuca. Num salão de beleza ela caiu na minha mão, aí...

Talentoso mesmo, o Francisco Bosco. Tem umas três crônicas, ops, perdão, ensaios do Globo que guardei, de tão bons.