Assim, a quem puder ajudar, a quem puder doar sangue em nome de Danielli Pureza [conforme indicado no texto abaixo], a minha gratidão.
Eis-me aqui, às 16h35min desta quarta-feira chuvosa, diante do monitor e chovendo mais que a chuva que cai lá fora de tanto que choro. Jamais toquei nesse assunto publicamente, não ao menos de forma direta, porque eu entendo – até mesmo porque aprendi demais nesses anos de profundo enfrentamento – que a dor de cada um é absolutamente particular, íntima, indivisível e instransferível. Mais que isso, dá-me engulhos a simples idéia de imaginar que alguém, quem quer que seja, diante de uma exposição mais clara, ponha-me na conta do piegas. Aprendi, também, que é preciso ter, sempre, em meio ao que vivo, ânimo, dignidade e coragem. Agradeço aos deuses, diariamente, por enfrentar, como enfrento há mais de 3 anos, a situação que a vida pôs no meu colo. Melhor dizendo: no colo da mulher que desde 1999 dá-me o colo que me sustenta.
Não é mole – e ninguém faz idéia do quanto, aprendi isso também… – ver a pessoa que escolhemos, sofrendo diante de um revés de saúde. Eu já havia vivido situações similares com gente próxima. Sempre fui daqueles de bater no ombro e dizer “conte comigo, eu sei o que você está passando…”. Elas sempre puderam contar comigo – mesmo! – mas eu nunca soube o que elas estavam passando (como ainda não sei… a dor é sempre particular, íntima, indivisível e instransferível). Feito esse breve intróito, vamos ao que quero lhes dizer, que eu não vou escorregar e dar de fazer chorumela sobre isso!
Sou filho de Ogum, é no lombo do meu cavalo que eu guerreio, e vocês não têm nada que ficar ouvindo arengas pouco produtivas!
Hoje, por recomendação médica, minha menina, dona do mais bonito e luminoso sorriso que pode haver, precisou fazer uma transfusão de sangue. Pediu-me, pouco antes de eu sair de casa – profissional autônomo tem dessas coisas… – que eu tentasse conseguir doadores pra ela, sangue O+. Mais que isso, por conta das exigências da clínica, que eu conseguisse doadores de qualquer tipo sanguíneo…
Pois fui ao twitter… e quantas vezes, durante as últimas eleições falei sobre o poder impressionante dessa ferramenta…
Deu-se o seguinte: em questão de poucos minutos meu apelo foi ganhando espaço (através do conhecido RT, que repica as informações passadas pelos usuários) e eu fui, diante de todo esse movimento, um homem em estado de graça diante das manifestações de carinho e de solidariedade, sobretudo solidariedade.
Leio muito por aí frases – eu mesmo, vira-e-mexe, mando uma dessas… – dando conta de que o mundo acabou, de que a humanidade fracassou, de que não há mais jeito, por aí. Não é verdade.
São quase cinco da tarde, o nome da minha menina – Danielli Pureza – está nos trending topics do twitter, muita gente foi doar sangue, muita gente prometeu que doará amanhã, e eu não posso atribuir tudo isso a nada que não seja a desgastadíssima palavra “amor”.
Somos gente, somos de carne, osso, sangue e alma (sou um crente absoluto quanto a isso), e ainda que não coloquemos a alma nesse cadinho (respeito, profundamente, os céticos) somos capazes de gestos como esse que hoje, foi por um triz!, quase me derrubou de tanta emoção.
Vai, por isso, esse texto. Na intenção de cada um de vocês, que me lêem, gente que me conhece, gente que não me conhece, gente que me quer bem, gente que nem tanto, gente que - sabe-se lá o por quê! – abraça uma idéia, um pedido, que se fia na fiança de um mais próximo, que acredita e que faz acontecer.
Seria impossível, por óbvio, agradecer a cada um dos milhares que nos ajudaram, a mim e à minha menina, nessa batalha de hoje. Batalha que – tomem nota! – continua até sábado, ao menos para nosso específico caso. Até sábado, das 08h às 16h, doações de qualquer tipo de sangue são mais que bem-vindas no Hematologistas Associados, na rua Conde de Irajá 183, em Botafogo, fone (21) 2537-7440, em nome de Danielli Pureza.
Vai por isso, esse texto, esse agradecimento, esse manifesto de absoluta gratidão. O que vocês fizeram comigo hoje, e eu choro de esguichar, como uma vaca – pra manter o nível Tijuca da confissão! – , foi um tremendo cafuné, um carinho no rosto de barba branca que teima em sorrir e agradecer por tudo. Muito obrigado, do fundo do meu mais-que-baqueado coração tijucano.
Até.
[Eduardo Goldenberg; "Carta aberta aos meus". Em: Buteco do Edu]Tweet
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