terça-feira, 29 de março de 2011

Só os netos são felizes

Tenho pensado muito na velhice – e na morte. E tenho pensado sempre sob o ângulo do velho – ou assim tentado, se me alivio. Que direito alguém terá de lhe cobrar ânimo – ainda que livre de doenças graves – se o joelho dói, os tornozelos incham e as articulações já o impedem de andar livremente?

Para uma pessoa que foi jovem e, até faz pouco, caminhava quilômetros pela cidade, mas que já não pode se mover como outrora, que consolo será este de não ter doenças degenerativas, no coração e na cabeça?

A perspectiva, inegável, de se locomover numa cadeira de rodas é-lhe a degeneração toda – e todo o resto, consolo alheio, será egoísmo e adiamento [nosso; jamais dele].

O velho enxerga bem, fala bem, lembra-se de tudo, come tudo, dorme a noite inteira – mas não anda vinte metros sem expor a fadiga e a impossibilidade dos ossos, dos músculos. São os limites que o atormentam – e não importa que pudessem ser mais e maiores. São limites e são, também, sintomas. Definições.

Para um grande leitor, para quem a companhia da palavra escrita bastaria sempre, a perda [ou mesmo o enfraquecimento] da visão, por exemplo, será sinal contundente do fim, do começo do fim, e como não considerar que este começo, tão incisivo e cruel, seja o final todo, e que tudo já seja final, o final, sem tempos-etapas, inteiro e absoluto, como a pedra que cai – e que só resta esperar?

Tire os passos do velho andarilho – e pronto. É a morte, a despeito do definhar burocrático do corpo.

[Texto originalmente publicado no site Tribuneiros.com, a 4 de dezembro de 2008].

1 comentários:

Olga disse...

Como são tristes e lindas essas palavras. Sempre choro quando leio.

A velhice, desculpa, é uma merda.