Curioso é que, mesmo passados mais de cinco anos, tenho-lhe uma só ressalva - uma referência elogiosa à escola de samba Portela. Absolutamente lamentável e perfeitamente descabida. De resto, inclusive do ponto de vista estilístico [costumo desprezar meus escritos mais antigos], a cousa me parece correta e politicamente consistente, sobretudo nesses tempos de Marcelo D2 e outros "artistas marginais":
Tenho horror conceitual a coletâneas – quaisquer coletâneas –, mas venho de adquirir uma caixa-seleta com a obra de Bezerra da Silva, de quem sempre fiz o pior dos juízos e a quem, generoso que sou, decidi dar uma nova chance, uma espécie de revisão post mortem. Entretanto, e não obstante a melhor das intenções, reafirmo: Bezerra da Silva está condenado ao progressivo esquecimento.Tweet
Sim, há razoáveis momentos na massa falida do repertório bezerradasilviano: a coisa do malandro em oposição ao otário (o mané), de tão-tão irrelevante, chega a agradar o riso. Igualmente: a gozação-clichê de cornos, putas e sogras – a escória da temática intelectual entre os sem imaginação, inclusive escritores. As gírias, a originalidade dos termos da malandragem, ao lembrar de raspão por exemplo o monumental Padeirinho, despertam a atenção – e pouco importa que frequentemente pelo mau-gosto, o que explica o raspão: Padeirinho, o bamba de Mangueira, era elegante. Enfim, tudo passa e até diverte se houver limite: uma, duas, três músicas da porção medíocre de Bezerra da Silva no máximo e no bolo, entre sambas de terreiro da Portela, de partidos da Serrinha e do Salgueiro, de Martinho, de João Nogueira, Pagodinho, Jovelina e a turma do Cacique. E essa tolerância é para o que Bezerra tem de melhor: a mediocridade, o senso-comum. O pior – a demagogia favelada, a apologia ao consumo de drogas, o conteúdo pré-funk etc. – é insuportável.
O papo do bem contra o mal, sendo o bem incondicional a favela e os favelados, não dá liga e é de fazer corar a mais idiota das demências brizolistas. O mal, naturalmente, é todo o resto, a burguesia, e segue na linha tosca, bastante em voga, de satanizar as tais elites – como se não houvesse gente de bem com grana e como se só se pudesse ganhar dinheiro, este pecado, na lógica da espoliação dos pobres trabalhadores. É uma posição francamente covarde a do cantor: porta-voz dos marginalizados e onipotente da consciência social. É postura perigosa também na medida que se vale da miséria alheia, miséria inclusive de acesso à capacidade crítica, para monopolizar o protesto e com ele lucrar e fazer carreira. Existe no Brasil a tradição do “pai dos pobres” e, do ponto de vista estritamente musical, engodo maior não pode haver.
Bezerra da Silva se proclama o embaixador dos favelados. (É constrangedor). Diz-se igualmente um cronista – mas não chega sequer a sambas meia boca. Outro perigo: Bezerra da Silva confunde a observação crítica do cotidiano dos morros, do movimento das drogas, com a descarada apologia ao estilo de vida dos bandidos, legitimando-os por desejáveis ao registrar em disco, como coisa bacana, a linguagem do tráfico e seus costumes de meteórica ascensão financeira, de tênis novo, importado, por pisante. Sem entrar no mérito batido da legalização de entorpecentes, a venda e o consumo de drogas ainda é crime no Brasil e os policiais, que na média trabalham de acordo com a lei, só são manés pelo salário miúdo que ganham. Portanto: finco-me contra a mera sugestão de que o grave equívoco de abordagem supracitado se deva à ingenuidade analfabeta – não. Incorporar como sua a ingenuidade dos outros é o principal campo de escape para os que se dão bem no eterno chupa-chupa da ignorância alheia.
Algumas canções do repertório de Bezerra da Silva são incompreensíveis e me dão terreno para pensar o que quiser – problema dele; responsabilidade dele. (Clareza é qualidade e tanto mais quando se lida com questões no mínimo controversas). De certo, o recurso a termos inacessíveis tem uma função: chocar, causar estranhamento, incomodar a quem "entendido-iniciado" não é – e isso na melhor das leituras. De minha parte, já menos generoso, sugiro que seja linguagem cifrada para agradar bandido em Bangu I – e aí? (Problema dele; responsabilidade dele). No mais: talvez a alma penada de Bezerra da Silva, a vir puxar meu pé, possa explicar a gravação de sambas que nada mais contêm que um desfile de nomes de morros, sem sequer mencionar peculiaridades, características dos locais e de suas populações, como se tão-somente quisesse agradar aos excluídos, eternizando a alcunha de suas comunidades, tal qual fossem eles imbecis na cata de migalhas de consideração e ele, Bezerra da Silva, um político em véspera de eleição, o mesmo modelo que execra em um punhado de canções, o anti-cronista na busca insensível de votos e mais votos através de promessas que, honestamente, não valem os 44 reais que paguei por este conjunto pedetista de músicas.
Escrevi lá em cima que Bezerra da Silva está condenado ao progressivo esquecimento e então acrescento: tanto melhor para a cultura do samba.
5 comentários:
Meu Deus, liquidou com o Bezerra da Silva! Bem imagino os e-mails recebidos. Ainda não havia lido essa crítica, digamos, tão contundente.
Agora, "conjunto pedetista de músicas" e "de fazer corar a mais idiota das demências brizolistas", francamente, como diria o meu querido. Se bem que, confesso, ri um bocado.
Na verdade, querida Olga, é uma crítica a um modelo de, digamos, produção político-cultural... Bezerra, pequeno demais, serviu só de cavalo. Não tenho paciência para esta apropriação publicitária da pobreza. Das melhores profissões hoje é esta dos porta-vozes dos das minorias e dos miseráveis. Não dá!
E os principais "seguidores" do compositor nem são os miseráveis, escritor. São os que gostam da "cocada boa" e afins. E cocada boa é cara, né?
Não sei quanto custa... Mas, se há demanda [e como há!], barato não pode ser.
bezerra esquecido? nunca
de você é que ninguem vai se nunca lembrar
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