quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Retrospectiva [#4]

A tal "taça de bolinhas" foi um temas esportivos [esportivos?] mais controversos de 2010 - e não escapou, pois, à pena tribuneira. Em 14 de abril [aqui], escrevi porque - ao menos afetiva e moralmente - o troféu é [ou deveria ser] do Flamengo.

Era 1987 e eu tinha sete anos - exatos sete anos - naquele domingo em que o Flamengo foi tetracampeão brasileiro.

Naquele tempo, o leitor tome nota, o São Paulo F.C. era comandado pelo mesmo Juvenal Juvêncio de hoje, mas - atenção - tinha apenas dois títulos nacionais.

Lembro-me de que o dia amanhecera estranho, abafado, cerrado, e que pelo meio-dia, talvez um bocado mais, despencou-se sobre o Rio de Janeiro um dilúvio - um desses ora duros de recordar - que inundou a cidade, tanto mais a Praça da Bandeira, e que seria incontornável acaso falássemos de uma ocasião ordinária.

Mas, não!

Era domingo de gala; domingo de final de campeonato brasileiro, e o Flamengo entraria em campo. Zico entraria em campo. O recado era óbvio, urgente, sobrenatural; e até hoje - talvez que fantasie - não logro compreender de que maneira [aquilo não foi comum; não mesmo] se desanuviou o temporal… Fato é que às 14h30, no máximo às 15h, de súbito, rompendo a barreira cafona daquele gris inadequado, revelou-se o mais inexpugnável céu azul, prenúncio da glória que raiaria no instante futuro em que Bebeto vencesse a meta colorada do Internacional.

Estava escrito. (Ou seria possível a uma trama prosaica aquela arrancada fulminante de Renato Gaúcho, aquele tento que emudeceu o Mineirão, antes, contra o Atlético, na semifinal da competição)?
A cidade interditada, impossível, intransponível, insisto; mas o Maracanã de todo lotado para ver o Mengo ganhar. Não se saberá como; mas as pessoas chegavam, chegaram, aos milhares, dezenas de milhares.

Não terá sido à toa.

O Flamengo, com um timaço, batera adversários poderosos para chegar ali. Houve uma campanha; um percurso! E não é que por acaso, de repente campeão, assim como se num susto. Não! O Flamengo venceu os melhores, todos eles; foi melhor que os melhores, que todos eles. Não triunfou sob favor.

Não!

Ah, quem estava lá - eu estava - sabe… Quem viveu, ainda que de longe, sabe… E não precisava [não precisa] ser Flamengo para tanto. Não tinha conversa; não existia Sport Recife na história, então [como hoje, como sempre] clube de segunda divisão, aliás campeão da segunda divisão de 1987 [num certame obscuro contra o Guarani, depois de superar potências como Joinville, Inter de Limeira, Atlético Goianiense, Criciúma, Bangu, Náutico, Treze, Ceará, CSA e América-RJ]; e naquele domingo estranho, de chuva e sol, alagado, milagroso, em que as gentes marcharam [nadaram] quilômetros até o estádio, naquele domingo, no campo, na grama, na bola, definia-se - para o mundo, sem discussão - o título brasileiro, soberano, entre dois monumentais clubes de primeira: Flamengo e Internacional.

E aí houve [vi pela fresta entre dois senhores à minha frente] o passe genial - curto e num espaço curto - do Andrade; para a conclusão sutil, leve, minimalista, do artilheiro Bebeto. Inapelável.

Naquele tempo, o São Paulo F.C., dirigido pelo mesmo Juvenal Juvêncio de hoje - então apenas bicampeão brasileiro - fora um dos principais fiadores da conquista rubro-negra, que reconheceu à época e em documento lavrado, posterior, de 1997.

Minha questão, portanto, é: o que terá mudado neste enredo? O que mudou, desde então? Nada; nada se pensamos no esporte, no espírito esportivo; se pensarmos na honra. Nada, se pensarmos no futebol e em seus valores; no maior deles: o gol, os gols, aqueles - só eles - que fazem um campeão.

Ocorre que o São Paulo FC, com todos os méritos, ganhou outros brasileiros, emparelhou com o Flamengo [que ainda ergueria o nacional de 1992], e se tomou pela mais vulgar e oportunista cobiça.
Eis o que mudou: o São Paulo - ávido pela tal taça das bolinhas - viu na pequenez essencial do Sport Recife [mero instrumento descartável] a oportunidade de levar mais um troféu e se declarar, rasgando [imoral!] a própria palavra, o primeiro pentacampeão do Brasil, isso que a CBF vem de confirmar [provavelmente, avento, para compensar o clube paulista pela não-escolha do Morumbi como estádio de abertura da Copa de 2014; o leitor me cobre depois].

Se me sinto aviltado?

Não. Claro que não.

Nunca tive o São Paulo ou o Sport na conta de grandes [ou mesmo respeitáveis] oponentes; e tampouco me surpreendo com a postura institucional oportunista, vagabunda mesmo, de ambos, uma vez que também atribuo caráter a clubes etc.

(Especificamente sobre o Sport Recife, que nesta contenda assumiu e assume a própria miséria, a fixação em se impor campeão de um torneio que não venceu - que sequer jogou! - expõe sem querer o modo, o mais rasteiro, como o clube se vê: incapaz de ser um dia, de fato, na bola, o melhor do Brasil).

Se me sinto menos campeão - ou algo do gênero - com a canetada da CBF?

Não. Claro que não.

Era 1992 e eu tinha doze anos - exatos doze anos - naquele domingo em que o Flamengo foi pentacampeão [o primeiro pentacampeão] brasileiro…

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Retrospectiva [#3]

Publicado em 9 de março de 2010 no site Tribuneiros.com, este artigo - A guerra das drogas - ou: quem acredita em FHC? - valeu-me alguns desafetos entre aqueles que, felizes com as minhas duras críticas ao presidente Lula e ao PT, julgavam-me apoiador incondicional de Fernando Henrique Cardoso, o que nunca fui; e bem pelo contrário. Este texto, aliás, que analisa, a partir do discurso do tucano, o profundamente equivocado modelo esquerdista de combate [sic] às drogas, aponta para mais uma estupidez que aproxima [une!] Lula e FHC.


Fernando Henrique Cardoso almeja ser uma espécie de Al Gore. Muda-se o centro da obsessão, da ecologia para as drogas, e eis o retrato esfumaçado de um grave equívoco intelectual.

Ah, a vaidade…

A importância que se atribui, o cultivo incessante da fama de pensador progressista, está na origem dos desserviços, são vários, que o ex-presidente prestou e ainda presta ao Brasil. (Em vez de se articular - faltam-lhe coragem e compromisso - como líder de uma verdadeira e corajosa oposição ao governo petista, oposição que simples e vergonhosamente inexiste, deleita-se por voz suprema de uma causa tão pequena e mesquinha quanto perigosa e potencialmente explosiva, em torno da qual, tudo o que lhe interessa, pode brilhar sozinho mundo afora).

Primeiro, ainda chefe do Executivo, julgando-se imprescindível ao porvir da República, golpeou a Constituição, atentou contra o equilíbrio entre os Poderes e negligenciou os programas de governo e a estabilidade monetária para, sob práticas políticas obscuras, alinhavar - de forma indecente - a desprezível reeleição, pernada fundadora do modelo inchado de corrupção simbolizado pelos mensalões mil desta Federação.

Agora, anos depois, as [às] drogas…

Em nome da permanência sob o holofotes, esta doença do ego, e em função de uma biografia que só engana na França, temos aí este senhor a pautar um debate que, a pintar-se de urgente e íntegro [embora seja apenas apressado e mistificador], empurra-nos para um buraco mudo em que vozes dissonantes são esmagadas como retrógradas e, este pecado!, conservadoras - assim como, distraidamente, esmaga-se também o contraditório e, pois, a democracia; pela intimidação.

É assunto para textos futuros, mas o mesmo raciocínio pode e deve ser aplicado à forma desatinada como se conduz a discussão - na verdade, à maneira autoritária como se impõe uma posição - acerca das cotas raciais nas universidades brasileiras: sou contra, compreendo o racialismo em curso particularmente na UNB como um violento ataque à Constituição, mas basta que me posicione criticamente para ser acusado, como um desses tarados que contestam o holocausto, de negar a escravidão. (É sob esta pressão intimidadora, generalizadora, rasa e vigarista, que inclusive o STF analisa atentados constitucionais e sorri para os que querem um Estado em que o indivíduo seja progressivamente esvaziado para a ascensão de grupos e classes - e isso até o dia em que não houver mais o homem negro e, sim, absoluto, o movimento negro, que falará por todos e fora do qual negritude legítima não haverá; e então, não exagero, será o triunfo do engajamento como última chance de existência)…

Fernando Henrique Cardoso co-presidiu a Comissão Latino Americana sobre Drogas e Democracia. Sua frase mais destacada - a que lhe valeu o lugar [escalado pela revista “Foreign Policy”] entre os cem [não há sequer dez] maiores pensadores internacionais do momento: “A guerra às drogas é um desastre”.

Que engodo!

Em suma: FHC, afrouxando as amarras de qualquer rigor [ainda que forjado], considera que as políticas públicas de repressão ao tráfico fracassaram e, portanto, em vez de reforçadas, devem ser abrandadas. O leitor avalia!? E isto a partir de um ex-presidente que, a exemplo do atual, jamais atacou verdadeiramente o problema - a questão das fronteiras, da segurança nas fronteiras, ou será que o Brasil de súbito se tornou um notável produtor de coca e eu não fui informado? -, antes responsabilizando os governos estaduais.

Isto tem um nome: desonestidade intelectual.

Como não deixaria de ser, fiel ao propósito de ser o Al Gore dos entorpecentes, FHC é personagem-condutor de um documentário que propõe malabarismos para, afinal, vestir os coletes de Carlos Minc e defender a descriminalização do consumo de drogas.

Já escrevi algumas vezes e repito: o Brasil combate, com ganas de politicamente correto, o consumo de bebidas alcoólicas e de cigarros, indústrias legais, que pagam impostos e geram empregos, ao mesmo tempo em que se planta - em várias frentes, com centenas de ONGs a serviço e mesmo ministros de Estado - tolerante [simpático?] ao uso de drogas no país. Uma estupidez que se vale de argumentos falaciosos e sempre eurocêntricos [o paraíso para Fernando Henrique Cardoso…], entre os quais, mais recente, depois daquela fase de deslumbramento holandês, um que insiste em comparar o nosso país à Portugal, lá onde, segundo se fantasia, o enfoque da atuação governamental ante as drogas deslocou-se da esfera judicial para o terreno da saúde, sob o estabelecimento de uma política de redução de danos - conforme nos relata a coluna de Merval Pereira [hoje, 9 de março] em O Globo.

Isto nos seria formidável… Já pensou? No Brasil? O sistema público de saúde - o SUS - já ora falido então sobrecarregado pelo tratamento médico gratuito de cidadãos que, é preciso dizer, financiam diretamente o crime que oprime e mata.

Porra - repito: estamos no Brasil!

Ao contrário de Portugal, que, registre-se, não vai lá muito bem das pernas, temos vizinhos que são poderosos produtores de drogas, alguns [íntimos nossos, quiçá sócios…] têm o fomento a esta indústria como política de Estado, e não podemos nos converter-oferecer assim, por opção deliberada do governo, como se estivéssemos isolados do mundo, em mercado de consumo oficial e generoso para Bolívia, Venezuela, Equador etc.

O que é isso?

(Mesmo a Holanda, riquíssima e fincada em um continente que não produz drogas, vê-se agora obrigada a rever sua legislação, vá-lá, flexível; porque aquele país, feito em paraíso artificial, não tem mais meios de controlar as conseqüências imprevisíveis do consumo desenfreado, e não só no que se refere à saúde pública mas, também, no que concerne à segurança). (É loucura)…

Pode parecer radical [e é], mas vou na direção oposta - e não sem cobrar do governo federal brasileiro, insisto, que cumpra seu papel, a única solução, e fiscalize as fronteiras de modo consistente, a única solução: quero cada vez mais aproximar, do ponto de vista penal, consumidor de traficante - e responsabilizar o primeiro pelo arsenal bélico do segundo. Para deixar bem claro: o consumidor tem de ser responsabilizado; enquadrado, com rigor, no código penal.

Não?

Moro no Rio de Janeiro e não admito que o sujeito que fuma maconha [que dá só um tapinha, né?] nos finais de semana reclame-proteste-chore uma bala perdida ou o menino arrastado-dilacerado por um bonde de marginais. É inadmissível, a quem vive neste país, nesta cidade!, qualquer jogo de cintura que diferencie, quase com carinho, grandes traficantes, pequenos traficantes [eufemismo para os playboys, não raro de famílias abastadas, que intermedeiam o comércio] e consumidores.

Não mesmo.

Hipocrisia - esta palavra tão batida - encontra definição precisa na forma como Fernando Henrique Cardoso enxerga a questão e que consiste em montar um quebra-cabeça complexo, esquecer várias peças-chave, mas o julgar completo apesar dos buracos… O ex-presidente minimiza-ignora as obrigações fundamentais do governo federal, talvez para descarregar o peso da própria omissão, passa a mão na cabeça do consumidor, o agente financiador do tráfico, e ainda assim vende por completo um cenário, na realidade uma peneira, em que só figuram uma polícia militar viciada, corrupta e ineficiente e os bandidos estereotipados de sempre: aqueles que se entrincheiram nos morros e ostentam metralhadoras capazes de tombar um helicóptero.

Esta rede de financiamento do crime - atenção, rede cuja tessitura se dá na mais querida classe média, mas cujo bordado é obra de gente rica e influente - tem de receber, por que não?, o mesmo tratamento conferido ao cidadão-motorista capturado pelo rígidos padrões da Lei Seca depois de beber duas taças de vinho num jantar a dois. Não está bêbado, não porá em risco a vida alheia, mas não interessa - não é assim?: três cervejas levam ao mesmo destino que uma garrafa de uísque. Não é assim? Pelo bem da sociedade. Não é assim?

Fernando Henrique Cardoso considera que a criminalização do traficante de pequeno porte [o que vende maconha no colégio onde estudavam suas netas…] e o perfil repressivo do combate às drogas têm sido empresas que “enxugam gelo”. Como lhe é mui próprio, trata-se de meia verdade - e assim o é apenas porque o volume de drogas introduzido no Brasil, com a complacência de todos os governos federais dos últimos cinqüenta anos, o dele inclusive, abastece com fartura qualquer um que queira lucrar com o negócio.

Em resumo: a torneira é escancarada e tem pra todo mundo - e o ponto é justamente este: fechá-la. Que se faça um trabalho sério, de inteligência, nas fronteiras brasileiras, que se cerre as portas para o livre fluxo de cocaína e maconha, e a ação das polícias estaduais - livre de pequenos traficantes, o que obrigará o consumidor a frequentar as bocas de fumo - poderá ser de fato avaliada.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Retrospectiva [#2]

Cá seguimos com a retrospectiva de 2010, e com mais um texto - de enorme sucesso, que repercutiu muito e resultou em não menor polêmica - publicado no saudoso Tribuneiros.com, em 8 de janeiro: O povo de São Sebastião [todo ele]. Esta peça, atual demais!, é mais uma análise da cultura de tolerância carioca ante o crime cotidiano.


Nenhuma atividade ilegal - criminosa e assassina - será compreendida [admitida], aqui, como alternativa de inserção-ascensão social e de reparação pela desgraça racista e furiosamente discriminatória que caracteriza o Rio de Janeiro [o Brasil] desde a abolição da escravatura.

Excluídos dos salões do poder! - não há acesso negado no mundo [porta-fechada nenhuma] que me faça confundir sedução com vigarice, rebeldia com pilantragem; e nada, nem um grande mestre, convencer-me-á de que algo do carioca [do Rio de Janeiro, a minha cidade, se também me permitem] possa ser encontrado no ilegal.

Temos, ancestral e escrotíssima, uma elite perversa, excludente, corrupta etc.; mas esse papo - bonito, atraente, sem dúvida - de “malandragem” como instrumento para o desenvolvimento de espaços urbanos próprios, como estratégia de afirmação e pertencimento, é aquele mesmo, ideológico e mesquinho, que fomentou e deu curso ao surgimento do Comando Vermelho e do tráfico de drogas como o conhecemos hoje.

O que é malandragem, afinal? A maneira vulgar como esta palavra [conceito] foi - academicamente, inclusive - incorporada ao cotidiano brasileiro legitima, também no pensamento, o conto do vigário. Mas, afinal, o que é malandragem? (Se formos pela forma rasteira consagrada, teremos, por malandro, de apontador do jogo-do-bicho ao presidente Lula, de traficante de drogas a Noel Rosa; e nesta mentira, definitivamente, não incorro).

A ilegalidade é opção de bandido. No Rio de Janeiro, sob todos os pontos de vista [inclusive o histórico], ela foi - e é - formidavelmente explorada pelo Estado elitista; e aí está, aliás, um ambiente dos mais democráticos: existem bandidos para todos os gostos, de todos os níveis e formações, ricos e pobres.

Há quem leia - no conhecimento das leis [e na exigência, incondicional, de que sejam cumpridas] - um sinal de desconhecimento do que seja o Rio de Janeiro e seu povo.

Será que estamos tão mal assim? Será que somos tão pouco? Será que somos tão primitivos? Será que optamos mesmo pela ignorância e pela barbárie? Por que, por exemplo, para gostar de samba [para ter o aval dos sambistas], tenho de tolerar os que o fizeram refém? (Por que, para gostar de samba, para ter a aprovação dos sambistas, não posso dizer - sem patrulha - que este samba do Martinho para a Vila Isabel-2010 é chato pra cacete; fruto, de resto, de uma das mais nojentas armações da história dos concursos de samba-enredo)? Por que nos querem engessar assim? A quem serve uma cidade cujas favelas, intocáveis!, não podem sequer ser discutidas? Que mito é esse?

Com raras exceções, deparo-me com uma outra elite - recente e muito na moda, aquela se posta como interprete do povo - que exerce seu poder [que controla, perversamente, a miséria] justamente como guardiã de um Rio de Janeiro que, sempre em festa, mistura manifestações culturais orgânicas, como as da nobre matriz africana, com elementos marginais, como o jogo-do-bicho, instrumento decisivo para o financiamento do crime que mata sem dó.

Vai tudo no mesmo saco, despercebido, um pacotão de carioquices, de jeitinhos, de puxadinhos e remendos - mas não é assim, não. Talvez seja mais fácil, mais confortável, mais popular - mas não é assim, não.

Existem babaquices tremendas no tal choque de ordem do prefeito Paes - a proibição de cerveja no Maracanã, por exemplo, contra a qual nos batemos sempre aqui -; mas isso não desqualifica o conjunto da iniciativa, isso se de fato estivermos a favor da ordem pública. (Eu sou - declaro - a favor da ordem urbana; mas há os que acham que devo me envergonhar disso). (É mole)? (Não tenho apreço por índices elevados de coliformes fecais - e me querem convencer de que sou, por isso, um fresco incapaz de captar o sentido supremo e descontraído de ser carioca). (Vão se catar)!

Repressão ao jogo-do-bicho? Claro! É ilegal; e não é de brincadeira: aquele senhor que anota os talões, simpático, quase um familiar, é a ponta mais simples de um sistema assassino que, se cavarmos à vera, levar-nos-á, num túnel de sangue e corrupção, ao coração do crime organizado no Rio de Janeiro. (Sei que não preciso escrever isso, mas: nem todo o processo se enriquece por ser histórico e cultural - e é esta compreensão falaciosa de tempo e espaço, a mesma que mitificou vagabundos como Natal da Portela, que nos faz ter de engolir hoje anísios, luizinhos, jaiders e quejandos).

Remoção de favelas? De modo geral, como estão implantadas hoje, não. Mas por motivos estruturais, urbanos e habitacionais; não por pena, não por demagogia. Quero, com urgência, discutir as favelas que ocupam áreas de risco. Como não? (O que aconteceu em Angra dos Reis, em menor escala, acontece todos os dias - à primeira pancada de chuva). Quero debater, sim, sem mistificações e saídas poéticas fáceis - que são tão bonitas e comoventes quanto falsas e irresponsáveis. Favela não é museu, embora não sejam poucos os que lhe exploram [imobilizam] as artes… (Não tenho paciência para essa romantização da pobreza, com a qual quase todos lucram, menos os pobres; e estou certo de que o samba de que gosto existiria ainda melhor se o sambista pudesse nascer e viver em melhores condições).

Favela não é uma coisa boa - não como moradia, não como habitação. É uma solução improvisada e insalubre, perigosa, de sobrevivência. E é uma obrigação de qualquer cidadão que pense a cidade considerar-lhes alternativas.
Lamento que se confunda - será que se confunde mesmo? - o péssimo modelo habitacional que é uma favela [uma constatação, um fato] com a situação [passageira, provisória, assim esperamos] que lhe faz refúgio e trincheira habitual para criminosos. São coisas diferentes, que devem ser enfrentadas de maneiras distintas. (É tão repugnante o preconceito contra um favelado quanto a complacência com o criminoso que o usa como disfarce e escudo). Bandidos têm de ser combatidos, sempre, em qualquer lugar - e sou portanto a favor da tal ocupação dos morros. Eis um primeiro passo, policial, para que políticas públicas consistentes - e ainda ausentes - melhorem a vida de quem vive honestamente numa favela. Primeiro, segurança, saneamento, saúde, educação, transporte; depois, por quê não?, violino e orquestra. (Ou cavaquinho, se preferir; eu prefiro).

Que ofereçamos opções, chances, todas elas, ao garoto do morro - mas deixemos ele [ele!] escolher qual mercado respeitar. Essa é a civilização de um democrata.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Retrospectiva [#1]

Sei que já tinha encerrado o ano por aqui, mas resolvi propor uma semana de retrospectiva para 2010 - e não necessariamente com textos publicados neste ainda jovem blogue. Antes, puxarei peças que avalio importantes e que apareceram no [saudoso] site Tribuneiros.com. A primeira, Bandidos e bandidos, de 7 de janeiro, mais atual que nunca, mergulha na cultura de tolerância marginal do Rio de Janeiro, que muitos malandros sabidos - tão cariocas quanto equivocados - entendem como tradição e patrimônio cultural. (Amanhã tem mais). 

Vi, não faz cinco minutos, um bicheiro deficiente-físico. (E não terá sido o primeiro). O leitor compreende?

Um apontador do jogo-do-bicho cujas pernas são inúteis!

Um agente - a ponta mais visível do sistema - de um poderoso emaranhado ilegal, de uma monumental rede criminosa, que pode prescindir das pernas, que se locomove numa cadeira-de-rodas; porque sabe que jamais terá de correr da polícia.

É espantoso… (Ou seria, se já não estivéssemos tão anestesiados diante desses delitos cotidianos, miúdos - mas nem um pouco triviais). E acabamos por nos esquecer: o jogo-do-bicho, esta onipresença carioca, é proibido - é crime - neste país! (Ou a lei terá mudado? - é de se duvidar mesmo).

Eis uma representação bastante fiel - complexa, inclusive - do Brasil, o país da impunidade absoluta: o bicheiro que não pode caminhar, que deveria temer-desconfiar, que se deveria esconder, mas que, tão acomodado e seguro, monta uma banca, um escritório, em plena rua, à luz de um bonito dia de verão, e vende, como quem vende rifas!, talões e mais talões [vende ações] do crime organizado.

E não me venham dizer que o sujeito está trabalhando, ganhando o pão, que não tem culpa, que é vítima e o escambau - uma ova!

Aquele homem é um contraventor, instrumento fundamental - não raro [e estupidamente] romantizado, o “malandro maneiro” - de um esquema marginal obscuro, essencialmente corrupto e assassino, cujos tentáculos se estendem [a perder de vista] pelos poderes públicos. (Não me acostumo - fico mesmo indignado - a ver um policial fardado, um representante da lei, batendo papo, à sombra, com um apontador do jogo-do-bicho; aquilo é um escândalo, um escárnio à legalidade, e as pessoas no entanto a lhes cruzar como se diante da mais plácida cena urbana).

Tenho asco pela maneira tolerante - carioca, cheia de jeitinho, comumente orgulhosa - como admitimos o banditismo [às vezes sem reconhecê-lo] em nossas vidas.

Aquilo é um crime, ora!

Jogar no bicho - e saibam que não exagero - tem o mesmo efeito degradante de se comprar drogas, embora as pessoas o façam sem vergonha e com indisfarçável prazer, noto até uma aura de nostalgia, como se prestassem inestimável contribuição ao cultivo de uma importantíssima tradição cultural.

Que merda, hein!

Nem toda a tradição é boa, deveríamos saber; mas, no Rio de Janeiro, a noção de cultura se folclorizou para que, do mate-de-galão [com todos os coliformes fecais] ao jogo-do-bicho [com todos os assassinatos, passados e futuros], tudo fosse patrimônio cultural da cidade…

Fato incontornável: jogar no bicho é financiar a construção de novos ramais criminosos, que vão, rapidamente falando, da multiplicação de caça-niqueis ao comércio de armamento, aí onde - mas não só - os bicheiros se associam aos traficantes. (Alguém pode contestar isso)?

É a desgraça social - a tessitura de um Estado minado, viciado, inviável - diante de nós…
E daí?
A relação superficial [mas não menos promíscua] que se estabelece com o apontador de bicho da esquina, aquela camaradagem tão descolada quanto irresponsável [vão me chamar de elitista, preconceituoso etc.], é a origem do processo que legitimará, no carnaval, os grandes bicheiros como benfeitores das comunidades de Nilópolis, Vila Isabel etc. - e que nos obrigará a vê-los honrosamente tratados, sob a mais inacreditável omissão dos governantes, como autoridades, como competentes administradores e respeitáveis gestores do dinheiro público.

Uma ova!

Os bandidos assinam contratos com a prefeitura!; e meu estado de perplexidade - ainda bem - é constante… (A propósito, azar de quem pense que esta minha insistência em bater nos contraventores do jogo-do-bicho se deva a rusgas de carnaval e escolas de samba; é o Rio de Janeiro - o Brasil, por que não? - que está em questão).

E aqui quero manifestar um conceito: não faço distinção intelectual entre criminosos [do ponto de vista prático, que a Justiça lhes estabeleça as penas em consonância com o código] e não estou entre aqueles que são simpáticos a um tipo de bandido, pois que pobre, sofrido pelas desigualdades etc., ou supostamente ideológico. (Todos têm o meu desprezo; todos são vagabundos).

Não acredito em “causas” para um crime, não creio que um delito possa ter uma finalidade edificante, não me engano com sociedades - eufemismo para projetos de poder totalitários - construídas pela ilegalidade e sob a opressão, não mitifico porcos guerrilheiros, não endeuso terroristas assassinos, e só vejo mentira e barbárie tanto em “recursos não-contabilizados” quanto nos mais [muito mais] de 100 mil mortos pela ditadura cubana. Sei, porém, que destes pontos discordarão os mentores do “mensalão” e o Frei Betto - e acho ótimo: é assim que a civilização se distingue.

(Batedor de carteira, Cesare Battisti, torturador da ditadura militar, Alberto Cacciola, terrorista de esquerda, governador do DEM ou tesoureiro do Lula - é tudo bandido).

Criminoso é criminoso e merece a cadeia, seja Paulo Maluf, ladrão contumaz, ou Fidel Castro, assassino contumaz.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Um fabuloso 2011!



Este blogue entra em recesso [volto nos primeiros dias de janeiro] e o faz em grande estilo: com a emocionante gravação do coro para o samba-enredo [obra de arte!] do Império Serrano em 2011.

Tem pra ninguém!

Saúde, sucesso e juízo aos de boa fé. Afinal, teremos bons combater a travar no próximo ano.

Avante!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

O novo Gabeira

Publico abaixo a versão, digamos, hard [mais pesada e mais pessoal, de resto menos editada] do perfil do deputado estadual Marcelo Freixo que escrevi para revista Poder [edição de novembro de 2010].

Dezoito de outubro, segunda-feira chuvosa no Rio de Janeiro. O degradado anexo da Assembleia Legislativa – escuro e sujo – está vazio. São cinco horas da tarde e os funcionários e assessores parlamentares já batem em retirada. Pontualmente. Há um evidente clima de ressaca pós-eleitoral. Não no gabinete de número 4. Ali, Marcelo Freixo reúne a equipe para um balanço da campanha de reeleição e para discutir que posição tomar no segundo turno da disputa presidencial. A sala está cheia. Do lado de fora, pode-se ouvir a voz assertiva do deputado. Prega o “voto crítico” em Dilma Rousseff. Mais tarde dirá, sem deslumbramento: “Fiquei quase vinte anos no PT e nunca recebi tanta atenção do partido como agora.”

Referência entre os descolados cariocas, quase unanimidade entre os jovens politizados e os artistas engajados, ao mesmo tempo interlocutor de criminosos trancafiados em presídios de segurança máxima, inimigo número 1 de um sofisticado sistema de corrupção cujos colarinhos não raro se engalanam entre os pares deputados e filiado a um partido de esquerda sectário (o PSOL), Marcelo Freixo, 43 anos, parece driblar toda esta complexidade [todas essas contradições] para ocupar hoje o posto até há pouco exclusivo de Fernando Gabeira: o do político pop.

É verdade que não se sente à vontade no papel. Reage imediatamente – olhos arregalados – à comparação. Mas não tem jeito. Figuras incontornáveis do momento como Wagner Moura e Fernanda Torres, por exemplo, sempre discretos, declararam-lhe o voto e contribuíram financeiramente com a campanha. O recém-lançado filme “Tropa de elite 2”, em cujo roteiro colaborou e no qual inspirou o personagem Diogo Fraga [representado por Irandhir Costa; segundo o próprio deputado, de maneira muito precisa], mostra que Freixo e a causa que transformou em questão política urgente – o combate às milícias – estão na ordem do dia. José Padilha, diretor da fita, não lhe poupa elogios: “Ele é, pura e simplesmente, a liderança política mais importante que surgiu no Rio de Janeiro nos últimos trinta anos. Tem uma trajetória séria. É um dos únicos políticos que conheço que não coloca questões eleitorais à frente da ética e da responsabilidade social. Em suma, é uma possível luz no fim do túnel da política carioca.”

Loas à parte, alguns ranços da velha esquerda são latentes em Marcelo Freixo e se materializam na incoerência de se definir “antes e acima de tudo um militante dos direitos humanos” mesmo sentado defronte a um quadro em que se vê o retrato do terrorista Carlos Marighella.

Eleito deputado estadual em 2006 com apertados 13 mil votos, impulsionado sobretudo pela visibilidade alcançada pelo PSOL graças à então senadora Heloísa Helena, Freixo vem de se reeleger de modo consagrador: 177.253 votos. A segunda maior votação do estado. Antes do pleito, esperava-se – mesmo entre os membros de sua equipe – que alcançasse algo como 50 mil votos, o que, dada a pequenez do PSOL, talvez não lhe fosse suficiente. “Nunca comentei, mas calculava que teria cerca de 70 mil votos. Jamais imaginei que bateria os 170 mil”.

Como explicar?

Os números consistentes, que se distribuem por todo o estado, elevam-no à condição de ator político do primeiro time e reduzem o paralelo com o mítico Gabeira – aquele que, há trinta anos, elege-se como bastião último da moralidade e da ética na vida pública; o anti-político que vive da política – à explicação apenas parcial para este triunfo eleitoral. Sim, foi muito votado – o mais votado – na Zona Sul do Rio de Janeiro, rica e elitista, onde estão os chamados “votos de opinião”, supostamente mais politizados, e onde Gabeira sempre ergueu fortaleza. Contudo, destacou-se também na Baixada Fluminense, que reúne municípios pobres, e nas zonas Norte e Oeste da capital, reduto de quase todos os líderes marginais que combateu ao longo do mandato. O professor Luiz Fernando Almeida Pereira, do Departamento de Sociologia da PUC/RJ, oferece uma hipótese para a extraordinária votação de Marcelo Freixo: “Ele passa uma imagem muito convincente de seriedade, de honestidade. Isso, aliado à sua inegável coragem, mobiliza a juventude e o transforma num político cujas virtudes circulam sem restrições. Assim, sua atuação e sua mensagem chegam fortes a bairros e cidades onde, como se sabe, não pôde fazer campanha”.

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Três equipes de homens escolhidos a dedo se revezam para zelar – 24 horas por dia – pela vida do sujeito que, em 2008, presidiu a CPI que destrinchou e desafiou as milícias, organizações mafiosas muito influentes no Estado, com poderosos tentáculos políticos e empresariais, que controlam extensas regiões dos subúrbios cariocas. A comissão listou 1000 suspeitos de pertencer a essas quadrilhas, dos quais 225 foram indiciados. Desde então, a Secretária de Segurança Pública interceptou ao menos três planos de atentado contra o deputado.

Na pequena sala de espera do gabinete de Freixo, decorada com fotos de democratas como Fidel Castro, Hugo Chávez e Yasser Arafat, entre outros, dois policiais militares à paisana estão de prontidão. Um outro aguarda no corredor. Não têm hora para sair. Um deles diz: “Eu odiava política. Achava que os políticos eram todos iguais. Estava errado. Tiro o chapéu para o que este cara faz.”

Freixo era pesquisador da ONG Justiça Global quando, em 2000, atentou para o crescimento das milícias. Em 2004, esses grupos marginais, tratados como ‘mal menor’ pelos governantes, elegeram dois vereadores. No réveillon de 2006, ano em que afinal elegeriam um deputado estadual, uma sucessão de ataques incendiários a ônibus expôs o avanço territorial dos milicianos. “Já era um problema sério. Não havia, porém, um debate público correto a respeito. Não se compreendia o perigo do que se desenvolvia ali. Ao contrário, o próprio prefeito da cidade – Cesar Maia – classificava o movimento das milícias como ‘autodefesa comunitária’. Eduardo Paes, o atual prefeito, declarou então que era um novo ‘modelo de policiamento’. Um misto de ignorância e conivência política”.

As milícias, geralmente comandadas por ex-policiais, têm um modus operandi ousado e inédito, sequer esboçado pelo tráfico de drogas: mobilizam-se com pretensões políticas. Não dominam apenas territórios. Raptam também a opinião pública local e impõem os limites e os nortes eleitorais da comunidade. “Todo o miliciano possui sempre – sem exceção – dois campos de ação eficientes e perfeitamente articulados: é, ao mesmo tempo, dono de centros de assistência social e detentor dos meios de causar terror. Não dirige apenas o transporte público e o comércio do gás e da TV a cabo. A rigor, vende proteção contra a própria milícia e capitaliza esta dependência perversa em votos. Isso atraiu os políticos.”

Em 2008, havia 170 milícias. Hoje, são 250. Ainda assim, Freixo julga muito bem seu trabalho: “A CPI alcançou resultados excelentes e abriu o olho da sociedade para o que estava em curso. Só não foi melhor porque o Ministério Público e os governos, estadual e federal, falharam”.

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Marcelo Freixo ora trabalha pela instalação de uma CPI que investigue – a partir de fortes indícios de superfaturamento na compra de medicamentos – a Secretaria de Saúde do Estado. “A luta é perdida. O governo sabe que, se abrirmos esta tampa, a casa cai”.

É bastante duro com a administração de Sergio Cabral, que considera pior que as de Marcelo Alencar, Anthony Garotinho, Benedita da Silva e Rosinha. Bate especialmente duro no modo como o Executivo se impõe ao Legislativo: “Uma relação calcada numa maioria parlamentar clientelista. A base de apoio do governador se sustenta na troca de cargos. O governo compra deputados e faz da Alerj um apêndice seu.”

Menina dos olhos eleitorais de Cabral e de Dilma Rousseff, a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) é definida por Freixo como um mero “projeto de cidade” e um indicativo, segundo ele, de que a segurança pública ainda é compreendida como instrumento de segregação. “Se olharmos para dentro de uma comunidade que recebeu a UPP, é evidente que há um avanço: o tráfico sumiu, não se ouve mais tiros e ninguém morre. Isso é inegável. Meu papel, porém, que é o mesmo do governador, é olhar para fora, para o estado do Rio, para o conjunto. Aí, afirmo: não melhorou, não.”

Acusado de ser compreensivo (em excesso) com os bandidos e de lhes suavizar (em excesso) os crimes em nome dos direitos humanos, Marcelo Freixo de fato cultiva uma visão negativa da polícia, que frequentemente criminaliza e cujas modalidades de ação tende a rebaixar, sem, porém, apresentar-lhes alternativas práticas que não as óbvias educação e saúde de qualidade. Em termos de segurança pública - "coisa muito séria para ser assunto de polícia" -, ainda não superou o modelo brizolista.

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Freixo formou-se em história pela Universidade Federal Fluminense, em Niterói, cidade em que nasceu e onde vive com a mulher e um casal de filhos. A militância pelos direitos humanos teve início aos 18 anos, ainda estagiário, quando passou a dar aula para presidiários. “Aquela foi a minha escola. Dentro do presídio, eu soube o que queria fazer; como poderia ajudar as pessoas”. Dali para o PT foi um pulo. Filiou-se em 1989. “Sempre integrei a esquerda do partido e sempre divergi do chamado ‘Campo Majoritário’. No entanto, acreditava que ainda havia terreno para disputa”. Os primeiros anos do governo Lula fulminaram esta crença. “O capital político com que assumiu a Presidência lhe oferecia todas as condições de implementar as mudanças de que o Brasil precisava. A reforma agrária, por exemplo. Que enfrentasse o latifúndio; que estabelecesse um limite para a propriedade. E não que se compusesse com o agronegócio.”

A ruptura era inevitável e se deu em 2005. Ingressou no PSOL alguns meses depois – legenda que carrega uma contradição histórica já no nome, “Socialismo e Liberdade”. O jornalista Marcelo Moutinho, editor do departamento de Jornalismo da OAB/RJ, considera, entretanto, que o deputado transcende a sigla: “Parte do eleitorado o vê como um político menos sectário que o partido.”

Com efeito, Freixo construiu um mandato independente, que não se permitiu dirigir pelas tendências do partido. “O PSOL é uma necessidade” – diz o deputado. Em vários aspectos, afasta-se mesmo – ou tenta se afastar – da fama de inflexível da sigla. Nem sempre com sucesso. A questão das alianças eleitorais é exemplar. O partido aceita aliar-se, mas desde que apenas os outros façam concessões – o que fica patente em algumas de suas afirmações: “O radicalismo não está na intransigência do PSOL, mas na falta de princípios dos outros”.

Marcelo Freixo – que nunca faltou a uma sessão plenária – é muito respeitado entre os pares. Compreende a função do Parlamento e sabe separar as rígidas, às vezes intolerantes, posições do PSOL das exigências políticas da atividade legislativa. “Aqui é preciso transitar. Este é o espaço da divergência. Tenho relações republicanas mesmo com aqueles que estão do lado ideológico oposto”. Com ressalvas, o deputado Rodrigo Dantas (DEM) avalia bem a atuação do colega: “Um bom parlamentar, que, embora defenda um modelo de estado que considero ultrapassado e paternalista, deu uma contribuição importante, principalmente no combate às milícias.”

Questionado sobre as virtudes do governo Lula, Marcelo Freixo diz que a política externa foi a área em que mais se avançou. Repudia a visão positiva que se tem sobre a presidência de Alvaro Uribe na Colômbia, não considera a Venezuela uma ditadura – “ditadura era a do Bush sobre os povos do mundo” – e chama a atenção para as conquistas de Evo Morales na Bolívia (sejam lá quais forem; certamente não o expressivo aumento da produção de coca). A lógica do “voto critico”, que pregou para Dilma Rousseff no segundo turno da eleição brasileira, adapta-se também à forma como se relaciona com a ditadura de Fidel Castro em Cuba: “Se eu morasse na ilha, certamente seria um crítico dos sucessivos desrespeitos aos direitos humanos, mas não deixaria de apoiar o regime”. Resta apenas saber se teria liberdade para tanto.
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O futuro político imediato de Freixo parece passar pela prefeitura de Niterói, e já em 2012. O deputado não descarta a hipótese: “Comecei a pensar nisso agora. Sem pressa. Tenho um mandato a cumprir e esta é a única possibilidade alternativa”.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

E vem aí...


Abaixo, o texto da quarta-capa. Mais informações, entre no site - aqui.

Este é o primeiro livro inteiramente dedicado ao Santos-Dumont balonista. Ainda que seja um dos brasileiros mais conhecidos e admirados, faltava ao estudo do aeronauta uma publicação ricamente ilustrada – são 300 imagens, algumas inéditas – dedicada exclusivamente às suas experiências com dirigíveis, que culminaram com o lendário voo de outubro de 1901, quando provou que um balão podia ser controlado com lemes e motores adequados.

Esta fase inicial de seu trabalho – entre 1898 e 1901 – é muitas vezes ofuscada pelos aeroplanos que desenvolveria a partir de 1906, como o 14 bis e o Demoiselle. Esquecemos, assim, que inaugura o século XX tornando-se o primeiro brasileiro mundialmente famoso graças a seus inventos anteriores: os balões dirigíveis.

Valendo-se da mais abundante iconografia já reunida em livro sobre esta etapa da carreira do aeronauta, Os Balões de Santos-Dumont tem por objetivo retraçar sua “primeira história” – que já garantira sua celebridade aos 28 anos. O livro reproduz, pela primeira vez na íntegra, um álbum recém-descoberto com 70 fotografias originais (do qual só se conhece este exemplar), intitulado, em 1901, “A obra de Santos-Dumont”, pois já se considerava então que  balonista dera uma contribuição acabada à conquista do ar, e que completara uma "obra".

Outra contribuição importante deste livro é a recuperação de dez artigos originais de Santos-Dumont, até hoje inéditos em português, publicados à época em revistas da França, da Inglaterra e dos EUA. Finalmente, Os Balões de Santos-Dumont publica – pela primeira vez, traduzido do francês – a íntegra do último texto do aeronauta, "O homem mecânico", que permaneceu inédito desde sua morte.

O “Bom” Nassau: um invasor muito genial

A pedidos [foram centenas!], publico a íntegra de meu artigo para a quarta edição [recém-lançada] da revista O Amarello, cujo tema é colonialismo.

Não me engano naqueles discursos – mui críticos da colonização portuguesa do Brasil – segundo os quais a cousa teria sido diferente [e melhor] acaso fôssemos uma ex-colônia holandesa, por exemplo. Diferente, é provável. Melhor… Não sei. Ou não estará aí o miserável Suriname, vizinho nosso, a nos pulguear a orelha?
Portanto, exercendo minha soberania [concessão, dirá meu nobre editor] sobre este território impresso, informo: o presente escrito não se destina a teses de supremacia de um projeto colonial em detrimento de outro, tampouco se lança a especulações sobre como nos teríamos quedado se – olha o se aí – a empresa holandesa no Nordeste afinal triunfasse. Ora ignoro – ou quero ignorar – os exércitos, as estratégias, os modelos de exploração [quais sejam, estabelecidos em maior ou menor pilhagem dos recursos nativos], o poderio econômico etc.; e desprezo apaixonadamente a noção de pátria e a ideia vulgar de nação. (Ressalvada, claro, a Nação Rubro-Negra). Portugueses, holandeses, espanhóis, ingleses, assim, de modo geral, os colonizadores!, eles pouco me importam e eu os descarto solenemente.

Meu interesse é personalista e se detém a uma só figura – razão fundamental deste texto: João Maurício de Nassau-Siegen [Johann Moritz von Nassau-Siegen], o conde alemão que, contratado pela Companhia das Índias Ocidentais neerlandesas para governar o Brasil Holandês, chegou a Recife em 1637 e ali fundou sua ambiciosa Cidade Maurícia [Mauritsstad].


A prova clamorosa do sucesso da empreitada de Maurício de Nassau no Nordeste e da força de permanência de sua influência cultural-afetiva junto à população do Recife está, entretanto, no desaparecimento – quase imediato – de seu legado arquitetônico. É sintomático e curioso... Dispostos a apagar – sem vestígios – qualquer marca que remetesse ao período de dominação neerlandesa, os portugueses, ato contínuo à expulsão dos “invasores”, destruíram, de forma consciente, tudo quanto fora erguido pelos holandeses.

E não foram poucas as obras de engenharia encomendadas por Nassau, por meio das quais, de resto, disseminava os valores de sua formação protestante: com a pretensão declarada de transformar Recife em uma capital moderna e dinâmica, investiu na construção de Mauritsstad, cujos traçados urbanísticos ainda conformam os atuais bairros de Santo Antônio e São José, aterrou áreas alagadiças, drenou terrenos, abriu canais, construiu diques, ergueu pontes etc. Para si, mandou edificar dois palácios, Friburgo e Boa Vista, os quais cercou de monumentais jardins que, por sua vez, continham jardins botânicos e zoológicos.

Tudo isso – salvo uma ou outra ruína – perdeu-se. Não fosse a arte, sempre ela, e nada teríamos de material – de físico, concreto, palpável, visível – sobre os quase sete anos de governança de Nassau no Nordeste. É espantoso; milagroso – eu diria. Tudo foi ao chão, prédios inteiros, sólidos edifícios, frondosos palácios; e hoje, improvavelmente, são os desenhos e as pinturas de artistas viajantes os únicos guardiões daquele tempo; os derradeiros heróis ilustrados, senhores daquela história.


Jamais me parecerá pouco que um colonizador – um “invasor”, comandante frio de um exército acostumado a guerras e conquistas – tivesse a preocupação de contratar para sua comitiva, em pleno século XVII, um grupo de artistas; e isso com a clara intenção de documentar, para si, os cenários e os povos do Brasil.

Quando ouço alguém exaltar a de fato extraordinária Missão Francesa de Dom João VI – que, em 1816, fez vir ao Rio de Janeiro artistas como Debret, Taunay e Grandjean de Montigny, entre outros –, sempre me pergunto, sempre deslumbrado, sempre instigado: e Nassau, meu deus?; o que dizer da iniciativa de Maurício de Nassau!?

Sim, é evidente que havia muito de vaidade naquilo. O conde, cultíssimo, ao mesmo tempo bem-relacionado e ambicioso, não estava alheio aos costumes da aristocracia europeia, cujos gostos então já se voltavam para as artes, compreendidas também como um símbolo de status; e era natural que desejasse constituir uma coleção própria e, mesmo, acumular bens culturais para, num futuro incerto, presentear poderosos e lhes colher a proteção e as benesses.

Mas e daí?

Nassau era, antes de tudo, um amante das artes. Enquanto esteve no Brasil, entre 1637 e 1643, e a partir das poucas notícias de que dispomos sobre seus palácios em Mauritsstad, aventa-se que telas de Frans Post e Albert Eckhout lhes tenham decorado – com destaque – os salões mais importantes. Sabe-se que esses artistas eram então tratados com as melhores deferências e distinguidos – algo ainda incomum – como membros especiais daquela corte, e que almoçavam e jantavam à mesa do conde. Eram muito bem remunerados e, ainda que tivessem obrigações artísticas contratuais a cumprir, estimulados a produzir livremente e providos de todas as facilidades para tanto.

A ideia do mecenas moderno – o homem poderoso, hoje comum, quase banal, que financia criações artísticas generosamente – tem em Maurício de Nassau um de seus mais relevantes fundadores. E isso – repito – na década de 1640!


Venho de me dedicar longamente – por quase um ano – ao catálogo raisonné do pintor Albert Eckhout. Já conhecia a obra completa de Frans Post – publicada, com sucesso, pela editora em que trabalho – e era, como se nota, antigo admirador e entusiasta de Nassau. Sabia, porém, muito pouco de Eckhout.

Apesar das belíssimas paisagens de Post, creio [hoje posso afirmar] que nenhuma obra representa melhor o período holandês no Brasil e, portanto, as pretensões intelectuais de Nassau e o modo como compreendia e se relacionava com as culturas aqui de súbito reunidas que a de Eckhout; e isso por um motivo simples: ele foi o retratista oficial daquela corte e, com fabulosa originalidade e inegável habilidade técnica, pintou alguns óleos cuja observação é impactante mesmo para os padrões visuais correntes, e que representam e documentam um momento muito peculiar de transformação. Mais do que retratos das gentes, dos brasileiros, dos índios, dos negros, dos mestiços – o que, por si só, já significaria uma inovação espetacular –, são retratos do encontro entre esses povos, e se carregam de todas as consequências imediatas disto.

Que se tenha em precisa conta sempre o seguinte: Frans Post e Albert Eckhout foram os primeiros pintores viajantes que retrataram o Brasil; os pioneiros. É evidente, pois, que criaram sob um olhar condicionado, certamente contaminado pela busca do exótico e em perfeita consonância com a visão eurocêntrica segunda a qual tudo quanto estivesse do outro lado do Atlântico seria excêntrico e genericamente definido por Novo Mundo.

Uma vez que fosse o retratista de Nassau e que se dedicasse especialmente a representar as gentes recém-chegadas que compunham a novíssima população brasileira, é em Eckhout – no trabalho deste pintor – que se revelam de maneira mais candente os preconceitos, as tensões e as expectativas daqueles encontros.

Aqui, vou me dedicar, brevemente, à Mulher africana do artista, este monumento à sexualidade e à fertilidade ou, mais formalmente, à interação entre as gentes e à fluidez entre os limites étnicos; quadro que avalio ser uma obra prima. Afora o fato de que a figura seja a precursora – ainda não reconhecida e valorizada – do modelo de silicone em voga nos seios [prestes a explodir] de algumas moças da tevê, representa, por meio de seu corpo vigoroso, mas, também, de suas [breves] vestes e adereços, e do panorama de fundo, a reunião idealizada de vários povos do planeta em um ambiente tropical, e simboliza, de uma maneira não menos fantasiosa, o projeto colonial de Mauricio de Nassau e o jeito pacífico, ameno, miscigenado, firme mas discreto, como desejava impor o seu domínio. (Tudo seria maravilhoso, nas desde que sob seu controle).


Trata-se – não nos esqueçamos – de uma negra africana e, pois, de uma escrava. Tal qual Eckhout, no entanto, ela é igualmente estrangeira – o que os aproxima. A composição da tela é, como se diz, “uma viagem”, e agrupa, por exemplo, num litoral claramente brasileiro [em que índios pescam à praia], um cesto transbordante de frutos tropicais, uma saia e um chapéu africanos característicos e um cachimbo tipicamente europeu, assim como podem ser também classificados os brincos e o colar de pérolas burgueses.

O conjunto resulta numa saborosa mistura – francamente artificial – de elementos de diversas partes do mundo, espécie de Epcot Center da época, que se destinaria, especulemos, a forjar a identidade cultural do futuro sob as rédeas dos holandeses e, especificamente, de Nassau. A criança do quadro, o filho, ouso dizer, indica – nada a ver com o norte malicioso que dá à espiga de milho – este porvir de dupla nacionalidade harmônica, ao segurar o cereal, próprio às Américas, e o pássaro identificado como a “ave do amor africana”. Era a paz – a união – permitida e estimulada pela generosa matriarca da humanidade, a Sra. Europa, e concedida, como uma graça, pelo Governador-Geral, o conde Maurício de Nassau.


Estou entre aqueles que consideram que os maiores personagens históricos brasileiros só logram de fato a grandeza quando enfim homenageados por um enredo de escola de samba carioca. É verdade que nem sempre funciona, como nos lembram os desfiles que reverenciaram figuras como Beto Carrero, Chico Recarey etc. Exceções terríveis que confirmam a deliciosa regra.

Nassau, não obstante fosse o “invasor” e, logo, o inimigo, aquele que desafiou a ordem portuguesa e o orgulho da tradição conquistadora lusa, brilhou, direta ou indiretamente, em dezenas de enredos que cruzaram a passarela ao longo das décadas – os do Império Serrano em 1959 e 1968, o da Vila Isabel em 1972 [obra de Martinho da Vila, que, aliás, refere-se ao conde, com imensa felicidade, como “Bom Nassau”], o da Beija Flor em 1982, o da São Clemente em 2004, entre outros – e que resultaram em alguns sambas memoráveis.

Ao menos um deles é supremo: aquele – “Pernambuco, Leão do Norte”, de Silas de Oliveira – com que o Império Serrano foi vice-campeão do carnaval de 1968. Trata-se de uma letra concebida sob a visão dos portugueses, dos vencedores, e que dignifica a luta daqueles que expulsaram os holandeses e restabeleceram o controle patrício do Nordeste. No entanto, a despeito do tom de glorificação à reconquista triunfal, o samba-enredo, bem a seu início, reconhece e distingue – num verso tão curto quanto elegante – o nome e a honra de Nassau:

“Esta admirável página
Que o passado deixou
Enaltece a nossa raça
Disse um famoso escritor
Que Maurício de Nassau
Na verdade foi um invasor
Muito genial (...)”

Não poderia ser mais justo.

["O 'bom' Nassau: um invasor muito genial"; O Amarello #4, 2010].

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O Amarello #4

Será nesta quinta-feira [9 de dezembro], em São Paulo, o lançamento da quarta edição do fanzine Amarello, para o qual, mais uma vez, colaboro. O tema - colonialismo - parece, de início, árido, mas abre muitas possibilidades e me permitiu, por exemplo, escrever sobre um de meus personagens favoritos: o grande Mauricio de Nassau, aquele que, segundo Silas de Oliveira, "foi um invasor muito genial".

Abaixo, o convite. Estarei lá.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010