Era 1987 e eu tinha sete anos - exatos sete anos - naquele domingo em que o Flamengo foi tetracampeão brasileiro.
Naquele tempo, o leitor tome nota, o São Paulo F.C. era comandado pelo mesmo Juvenal Juvêncio de hoje, mas - atenção - tinha apenas dois títulos nacionais.
Lembro-me de que o dia amanhecera estranho, abafado, cerrado, e que pelo meio-dia, talvez um bocado mais, despencou-se sobre o Rio de Janeiro um dilúvio - um desses ora duros de recordar - que inundou a cidade, tanto mais a Praça da Bandeira, e que seria incontornável acaso falássemos de uma ocasião ordinária.
Mas, não!
Era domingo de gala; domingo de final de campeonato brasileiro, e o Flamengo entraria em campo. Zico entraria em campo. O recado era óbvio, urgente, sobrenatural; e até hoje - talvez que fantasie - não logro compreender de que maneira [aquilo não foi comum; não mesmo] se desanuviou o temporal… Fato é que às 14h30, no máximo às 15h, de súbito, rompendo a barreira cafona daquele gris inadequado, revelou-se o mais inexpugnável céu azul, prenúncio da glória que raiaria no instante futuro em que Bebeto vencesse a meta colorada do Internacional.
Estava escrito. (Ou seria possível a uma trama prosaica aquela arrancada fulminante de Renato Gaúcho, aquele tento que emudeceu o Mineirão, antes, contra o Atlético, na semifinal da competição)?
A cidade interditada, impossível, intransponível, insisto; mas o Maracanã de todo lotado para ver o Mengo ganhar. Não se saberá como; mas as pessoas chegavam, chegaram, aos milhares, dezenas de milhares.
Não terá sido à toa.
O Flamengo, com um timaço, batera adversários poderosos para chegar ali. Houve uma campanha; um percurso! E não é que por acaso, de repente campeão, assim como se num susto. Não! O Flamengo venceu os melhores, todos eles; foi melhor que os melhores, que todos eles. Não triunfou sob favor.
Não!
Ah, quem estava lá - eu estava - sabe… Quem viveu, ainda que de longe, sabe… E não precisava [não precisa] ser Flamengo para tanto. Não tinha conversa; não existia Sport Recife na história, então [como hoje, como sempre] clube de segunda divisão, aliás campeão da segunda divisão de 1987 [num certame obscuro contra o Guarani, depois de superar potências como Joinville, Inter de Limeira, Atlético Goianiense, Criciúma, Bangu, Náutico, Treze, Ceará, CSA e América-RJ]; e naquele domingo estranho, de chuva e sol, alagado, milagroso, em que as gentes marcharam [nadaram] quilômetros até o estádio, naquele domingo, no campo, na grama, na bola, definia-se - para o mundo, sem discussão - o título brasileiro, soberano, entre dois monumentais clubes de primeira: Flamengo e Internacional.
E aí houve [vi pela fresta entre dois senhores à minha frente] o passe genial - curto e num espaço curto - do Andrade; para a conclusão sutil, leve, minimalista, do artilheiro Bebeto. Inapelável.
Naquele tempo, o São Paulo F.C., dirigido pelo mesmo Juvenal Juvêncio de hoje - então apenas bicampeão brasileiro - fora um dos principais fiadores da conquista rubro-negra, que reconheceu à época e em documento lavrado, posterior, de 1997.
Minha questão, portanto, é: o que terá mudado neste enredo? O que mudou, desde então? Nada; nada se pensamos no esporte, no espírito esportivo; se pensarmos na honra. Nada, se pensarmos no futebol e em seus valores; no maior deles: o gol, os gols, aqueles - só eles - que fazem um campeão.
Ocorre que o São Paulo FC, com todos os méritos, ganhou outros brasileiros, emparelhou com o Flamengo [que ainda ergueria o nacional de 1992], e se tomou pela mais vulgar e oportunista cobiça.
Eis o que mudou: o São Paulo - ávido pela tal taça das bolinhas - viu na pequenez essencial do Sport Recife [mero instrumento descartável] a oportunidade de levar mais um troféu e se declarar, rasgando [imoral!] a própria palavra, o primeiro pentacampeão do Brasil, isso que a CBF vem de confirmar [provavelmente, avento, para compensar o clube paulista pela não-escolha do Morumbi como estádio de abertura da Copa de 2014; o leitor me cobre depois].Tweet
Se me sinto aviltado?
Não. Claro que não.
Nunca tive o São Paulo ou o Sport na conta de grandes [ou mesmo respeitáveis] oponentes; e tampouco me surpreendo com a postura institucional oportunista, vagabunda mesmo, de ambos, uma vez que também atribuo caráter a clubes etc.
(Especificamente sobre o Sport Recife, que nesta contenda assumiu e assume a própria miséria, a fixação em se impor campeão de um torneio que não venceu - que sequer jogou! - expõe sem querer o modo, o mais rasteiro, como o clube se vê: incapaz de ser um dia, de fato, na bola, o melhor do Brasil).
Se me sinto menos campeão - ou algo do gênero - com a canetada da CBF?
Não. Claro que não.
Era 1992 e eu tinha doze anos - exatos doze anos - naquele domingo em que o Flamengo foi pentacampeão [o primeiro pentacampeão] brasileiro…


