quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Votos

Este texto - Votos - foi publicado na sétima edição [dedicada ao tema "o que é para sempre"] do fanzine Amarello:


 
Num sábado recente, Carol cochilou no sofá enquanto víamos algo na televisão. Fechou os olhos, encolheu-se um pouco, de lado, posicionou a mão sob o queixo, para apoiar a cabeça – de um jeito delicado que é só dela – e repousou. Tive então, olhando para ela, uma sensação de grandeza, de segurança, de conforto, de paz. Respirei fundo, absolutamente deslumbrado... De repente, percebi, meu mundo estava todo ali, nela, com ela, descansando, apaziguado, lindo, protegido, entregue, resolvido, reunido, intenso, puro, tão poderoso e ao mesmo tempo tão simples, tão humano; tão meu, tão nosso – e experimentei o sublime sentimento da completude, uma forma de eternidade, a sensação de que me bastava inteiro ali, com ela, para sempre: porque meu mundo, senhoras e senhores leitores deste ilustre fanzine, meu mundo é a Carol, meu mundo, meu máximo, meu melhor, onde sou melhor, onde vou além, onde posso; e tive então vontade de chorar, e de abraçá-la, e de acordá-la, de sacudi-la loucamente para declarar meu amor, de esmigalhá-la num abraço forte, desesperado, e de abrir a janela e gritar à cidade minha alegria, de rufar ao universo como a bateria do Império Serrano, de bradar aos vizinhos que ali estava um homem realizado, pleno, pronto e urgente para singrar e vencer os mares de uma vida a dois, e no entanto, quieto, comovido, zeloso, guardião, eu apenas a observei, admirado, minutos a fio, e fui completamente feliz.

Sou completamente feliz, assim como sói a quem ama e é amado, e grato – muito grato – por ter consciência deste amor.

Nas noites ansiosas que antecederam o dia em que nos casamos, ao longo das madrugadas anteriores àquele desejado dia, sempre encontrei o sono – a tranquilidade – pensando no modo como Carol descansou naquela tarde de sábado; pensando em que tudo que me interessava estava ali, tudo de que preciso, nos metros quadros de alcance do meu corpo; pensando em que as coisas são bem mais singelas e autênticas do que impõem a propaganda e a pressa; pensando em que, nos momentos difíceis do porvir, quando algo não der certo, sempre a terei, minha Carol, para dormir e despertar ao meu lado, para criar e recria um canto nosso, só nosso, para me oferecer uma palavra de carinho e incentivo, um longo abraço ou um frondoso sorriso, um beijo, e que é assim – desse jeito – que eu quero que nossa vida siga e se renove, de um jeito tão intimamente fabuloso quanto a imagem dela cochilando no sofá, com a mãozinha de princesa acomodando a cabeça; e ora agradeço pela graça de ter a mulher cujo amor me é ao mesmo tempo calor e sereno.

É nisto que acredito, senhoras e senhores leitores deste romântico fanzine, para sempre, por para sempre; é nisto que aposto, que me aposto, por horizonte, por fé, por fim, e amanhã ainda mais que hoje – mais, mais e mais: nos valores da família, na fortuna de ter amigos e no amor de minha Carol, na generosidade de minha Carol, no jeito dela, nos detalhes dela, na pele dela, no olhar verdadeiro dela, esta mulher cuja leveza rejuvenesce e dá norte à minha existência, ao meu universo.

É nisto que creio: em voltar para casa, para sempre, para ela.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Laraialaia Laialaia Laialaia

Já está no ar - publicado no novíssimo site do Império Serrano - minha coluna Serra dos anos dourados da nossa história, uma análise afeitiva de nosso samba-enredo para o carnaval de 2012.

Acho que ficou bem bacana:

AQUI

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Marina Silva: onde a farsa perdeu a modéstia

Atendendo aos incontáveis pedidos, lanço aqui a íntegra de meu artigo publicado na sexta edição do fanzine Amarello.


Do ponto de vista moral, não existe ex-petista. Contingências, certamente oportunistas, podem produzir um eventual solista, mas que jamais – jamais, enfatizo – negar-se-á ao coral por ocasião de um concerto decisivo. Portanto, se escreverei sobre Marina Silva, é mister que registre, a título de introdução, meu desprezo pela mentira – assaz influente – segundo a qual esta senhora teria deixado o PT inconformada com a corrupção no governo. Não mesmo! Ela foi ministra do Meio Ambiente desde a posse de Lula, em 2003, permaneceu no cargo até 2008, integrando o esforço [mui pouco republicano, diga-se] pela reeleição, e só se desligou do partido em 2009 – quatro anos após a quadrilha do “mensalão” ter sido denunciada.

(Se devemos, então, qualificar a posição de Marina Silva ante a roubalheira dos companheiros – e a não a ser que haja alguma modalidade de indignação com quatro anos de delay –, terá de ser algo entre a omissão e a solidariedade).

Marina saiu do Partido dos Trabalhadores porque queria – de qualquer jeito – disputar a Presidência da República em 2010, o que lhe seria negado, de maneira limpa [isso, claro, na medida possível ao PT], pelas instâncias partidárias; a rigor, pelas regras e métodos [o tal “centralismo democrático”; risos] que ela, fundadora da sigla, ajudou a estabelecer e dos quais, dona, ainda hoje, da legenda no Acre, sempre se beneficiou. Chego, pois, a um outro ponto relevante – um dos mais importantes deste texto: ou Marina Silva é a salvação da vida pública brasileira e símbolo divinal da redenção política do Brasil, ou muda de partido a cada contrariedade. (Mais: ou ela simboliza o progressismo nesta pátria tão crente, ou professa a fé evangélica e suas restrições neste país tão descolado).

Basta de mistificação.

Espanta-me poderosamente que em Marina Silva se revista de virtude o que nos outros é vício. Pergunto: nesta dança rasteira de cadeiras partidárias, o que a diferenciará, por exemplo, de um Ciro Gomes? A Lei Eleitoral, apesar das propostas de reforma política, ainda permite que esta senhora seja estandarte [avatar!] de si mesma, que troque de legenda sempre que amuada – mas isto não pode blindá-la de receber o tratamento dispensado aos mortais que fazem o mesmo. Ou o que é pernicioso tornar-se-á benfazejo apenas para ela? Ou o que é impostura nos outros se lhe transfigura em exclusiva decência?

(Quando foi, afinal, que a farsa perdeu a modéstia)?

Gilberto Kassab deixa o DEM e é um “fisiologista”, mais um maldito sem-ideologia etc. Ok. Justo. Ela, por sua vez, larga o PV, onde mal ficou dois anos, sai atirando na democracia representativa, e isto entretanto é compreendido e propagandeado – como é fácil ser Marina Silva no Brasil! – como demonstração sublime de “desencanto com o sistema político” e disposição quase beatificada por criar um “movimento suprapartidário que instale a política em novas bases”.

É isso mesmo?

Ah, por favor: vão plantar batatas numa área de preservação ambiental!

Esse papo de suprapartidarismo – esse discurso ONGuista para enganar milionário trouxa e sugar recursos estatais – seria muito bom [e eu o aceitarei como honesto] viesse acompanhado de uma renúncia às ambições político-eleitorais. Que tal, Marina Silva? Ficar, porém, gastando esse mimimi terceiro-setorista, que esculhamba as instituições republicanas [mas que não planta jaqueira sem dinheiro público], ao mesmo tempo em que se vale das fragilidades do sistema político para pular de galho em galho e disputar eleições sucessivas é embuste de resto mui desrespeitoso para com a inteligência alheia. À vera, ressalvado aquele blush de beterraba, o que distingue Marina Silva de Ciro Gomes ou de Gilberto Kassab é tão-somente a festiva [e sintomática] adesão de Caetano Veloso...

(Aliás, uma interrogação oportuna: em que seringal se perderam as relações do marido desta santa com aquela ONG amazônica tantas vezes acusada de contrabando de madeira)?

Tenho asco de políticos cuja principal bandeira consista na desqualificação – na criminalização – da política. Como assim? Marina Silva raptou a ética, a moralidade e os bons princípios assim como se sequestrasse carbono distraída... Ou se está com ela [e, ato contínuo, no reino da glória], ou se estará errado, condenado. Não dá! Esta senhora está aí há pelo menos trinta anos, petista histórica! [as pessoas têm orgulho disso, né?], faz pouco encerrou um mandato [medíocre, se me permitem] de Senadora da República, vem de concorrer à Presidência com votação significativa, e no entanto é capaz de atacar violentamente o Parlamento, que até anteontem integrava, porque este, cumprindo sua missão institucional e em consonância com a Constituição Federal, aprovou, após meses de tramitação, discussão e aperfeiçoamento, um texto de Código Florestal [equilibrado, exemplar, registre-se] que a desagradava, que contrariava seu estilo claudia-ohana de floresta.

Isto tem um nome, senhoras e senhores, a despeito de toda a propaganda de leveza: autoritarismo.

Minha repulsa intelectual por Marina Silva decorre do fato de que se posicione, desde que tomou voz no cenário público brasileiro, como encarnação de um tipo de [vá-lá...] ideologia – por ela nomeada “sonhática” – que se comporta e propaga, charmosamente, como “verdade natural”, absoluta, definitiva, superior, contra a qual, portanto, não cabe contestação.

Marina Silva é – traço fundamental dela – autoritária, intolerante, radical. Trata-se, petista moral que é, de uma política para quem a democracia é extraordinária até o momento em que crie embaraços a seu personalismo, à sua intolerância politicamente correta. Aí o tempo vira e ela, avessa ao debate, ao contraditório, ignorando as leis [que, afinal, são para os humanos], lança-se aos mais bárbaros discursos golpistas – mas tudo sempre com aquela placidez de quem não é deste mundo, de quem veio ungida da selva para nos salvar de nós mesmos, de quem sabe de algo que desconhecemos, de quem vê a luz, de quem está convencida de representar a sabedoria; de ser a sabedoria.

As instituições da República – seus poderes, pesos e contrapesos – existem também [resistem, ao menos por ora...] para equilibrar forças e limitar as ganas de gente iluminada como Lula e Marina Silva. (Uma sociedade que precisa desses profetas, desses mitos, desses seres abnegados e messiânicos é uma sociedade imatura, doente, frágil – gado cego para qualquer tocador aventureiro).

Com o primeiro no poder, sabemos bem como foi. (Ainda pagaremos, talvez já o paguemos – política, institucional e economicamente – pelo lulismo). Mas fico aqui imaginando como seria – pior, inacreditavelmente pior – um Brasil governado por Marina Silva.

Estou entre aqueles [os párias!] que consideram que este país tem reservas ambientais em excesso, bem mais que qualquer outra nação importante do mundo; e estou certo de que, conservado o que ora temos já demarcado, não precisamos sequer de um metro a mais de florestas – isso se quisermos responder às necessidades de nossa gente antes de aos anseios dos micos-leões-dourados.

Sou, com orgulho, pelo pleno desenvolvimento, pelas ousadas obras de infraestrutura, pela multiplicação das hidrelétricas, pela produção de riqueza, pela industrialização, pela geração de empregos formais no campo, pela valorização do agronegócio e das novas fronteiras agrícolas – verde intocável, pra mim, é só o que compõe a bandeira do glorioso Império Serrano –, de modo que, em oposição absoluta e incontornável, considero Marina Silva um completo equívoco, o próprio terceiro-mundismo, a mais perfeita definição do atraso, com o qual, de resto, logo se deparariam – e se frustrariam, assim como se decepcionaram os que esperavam de Lula a expropriação da propriedade privada [hahaha!] – aqueles que lhe projetassem o “desenvolvimento sustentável” como norte econômico.

Em que pese a competente propaganda de um entendimento equilibrado das necessidades do país, nos seis anos em que foi titular do Ministério do Meio Ambiente, esta senhora comportou-se com radicalismo – como entrave, como gesso, como agente do imobilismo; não como defensora dos bagres, mas como cabeça-de-bagre – sempre que confrontada com as premências do crescimento brasileiro, sempre que diante das demandas nacionais por energia e consumo. (Para se ter uma noção de quão errado alguém pode ser, foi no embate com ela que Dilma Rousseff esteve mais próxima de acertar)...

O discurso mais frequente de Marina Silva era – é – aquele que insistia [insiste ainda, com impressionante estupidez] em desqualificar – criminalizar, demonizar mesmo – o produtor rural, assim como se não fosse o agronegócio o maior responsável pela fartura de alimentos, pela comida barata na mesa do povo pobre e também pelos superávits comerciais recordes.

Num eventual e desastroso governo de Marina Silva, tenho dúvidas transamazônicas sobre se os bichinhos e as plantinhas do Brasil seriam de fato bem tratados. Estou certo, porém, de que as pessoas – os humanos! – gastaria mais [gastariam o dinheiro que não têm] para comprar arroz e feijão. Mas isso – claro – deve ser uma etapa libertadora rumo ao magérrimo desenvolvimento transcendental.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Saltando aos olhos

Já está para o mundo meu primeiro texto - uma resenha licenciosa do livro The big book of breasts 3D - concebido exclusivamente para NOO Mag; a quem interessar possa.

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segunda-feira, 25 de julho de 2011

Crônicas da Corte

Estreia hoje - já estreou, aliás - a coluna "Crônicas da Corte", publicada no blogue do glorioso Império Serrano. Coube a mim o texto de inauguração, Momento histórico, por meio do qual abro passagem para Marcelo Moutinho, Carlos Gil e Luiz Antônio Simas, com quem terei a honra de dividir o pedaço.

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sexta-feira, 15 de julho de 2011

Paris



Não terei muitas palavras para este fabuloso [e amplamente conhecido] C'était un rendez vous, de Claude Lelouch, senão, por favor, que não se tente repetir tal maravilha - tamanha velocidade e desrespeito a todos os sinais, mãos e calçadas - em casa.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

A quem interessar possa

Estava de férias, daí o porquê de dão longa ausência. Não estou mais, motivo pelo qual publico esta breve satisfação; porque voltarei a escrever aqui em pouco, mas não ainda; porque, embora de volta formalmente à labuta, sigo boiando, com preguiça de dar dó [ou inveja], e de resto - alguns dirão que sob rara lucidez - achando tudo o que penso irrelevante e/ou chato. (Sim, é charme).

Em todo caso, porquanto haja ainda valentes que me convidam a escrever e publicar, terei novidades - as quais, porém, não posso anunciar. Cousa para este corrente julho. O leitor aguarde.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Marta Suplicy: quando a ignorância encontra o autoritarismo

Veja do que esta senhora é capaz... É inacreditável. Ela, ignorante tanto sobre valores republicanos quanto sobre os códigos regimentais do Senado [de resto, inábil até para controlar a mesa de som da casa; repare], preside a sessão e o faz, sempre arrogante, de um modo truculento raramente visto na ditadura militar, atropelando - na marra mesmo - todos os recursos legais interpostos pela oposição.

Comporta-se no grito, de maneira infame, asquerosa, degradante, e no entanto, constrangedoramente perdida, cumpre a vergonha adicional de ser de todo dirigida pela senhora que a secretaria - note - e que passa os mais de nove minutos do vídeo soprando-lhe ao ouvido o que dizer. Não fosse aviltante, seria engraçado.

(Ressalto também o instante em que, tratando as exigências regimentais como se fossem instrumentos golpistas, expõe o modo como vê e compreende o papel da oposição - segundo ela, o de "fazer tumulto" -, assim como se desta só houvesse aquele estilo irresponsável do PT).

É tão espantoso que - atenção! - até aquele bravo patriota conhecido por Romero Jucá, líder do governo no Senado, teve de intervir em nome da democracia, da serenidade e da maturidade de mulheres e homens experientes, que representam os estados da Federação...

Isso é petismo na veia.


quarta-feira, 1 de junho de 2011

O talento é o transe

Abaixo vai, na íntegra, o texto que escrevi para edição #5 [que está uma beleza] do mui querido fanzine O Amarello, que desta vez teve por tema o transe. (Lançada em maio, já pode ser também encontrada no Rio de Janeiro, sempre gratuitamente, nos seguintes pontos: loja Isabela Capeto, Instituto Moreira Salles, Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Unibanco Arteplex, galerias Luciana Caravello Arte Contemporânea e Anita Schwartz, Home Grown e padaria La Bicyclette).

Eu, que já colaborara para aos números dedicados ao medo [#3] e ao colonialismo [#4], tive de me desdobrar para explorar - afinal, muito pelo avesso - um assunto que, mais do que desconhecer, desprezo. Curiosamente, talvez pelo esforço de singrar um mar tormentoso, a cousa resultou bem - e me quedei satisfeito com o resultado, talvez meu melhor texto para O Amarello, original e de resto fidelíssimo às minhas crenças e, pois, à única forma possível de transe segundo Carlos Andreazza.


Conta-se que Pelé, antes de um match importante, costumava isolar-se a um canto do vestiário. Sozinho, em silêncio, era como se dormisse. (Pelé se afastava e todos já sabiam, todos respeitavam – alguns decerto que por pura e feliz conveniência: aquele momento de ausência do rei era prenúncio de presença decisiva adiante, ao rolar da bola, e garantia de “bicho” depois)... Uma hora antes do jogo, portanto, deitado por quinze ou vinte minutos, entregava-se, “apagava-se”. Dirão alguns que entrava em transe; e não terei mesmo como contestá-los.

Transe, sim; mas, que transe? – eis o meu ponto.

Pelé alcançava, estou de acordo, um outro estado de consciência; havia nele, com efeito, uma transição de intensidade cerebral, um deslocamento-fermentação de frequência mental, mas – atenção – não no sentido [vulgar, se o leitor me permite] consagrado e massacrado pelo senso comum: em vez de acercar-se do tal subconsciente [esta palavra tão cafetinada], de uma campo de transcendência espiritual quase divino [e cafona, se o leitor me permite novamente], largando-se, pois, à frouxidão egoísta do inconsciente [outro termo prostituído], aproximava-se – isto, sim – da concentração plena, da noção integral da própria existência, do domínio concreto da razão e do raciocínio, de uma espécie de consciência máxima, condicionando todo o corpo ao exclusivo controle do pensamento e apenas do pensamento.

Um transe produtivo! (Produtivo e generoso).

Em vez de perseguir o além [ou a mistificação, se preferir], escapando-se, distanciando-se [fugindo-se?], Pelé agrupava-se, centrava-se, equilibrava-se, domava-se, assumia-se, bancava-se, e doravante geria-regia o próprio corpo por meio da mais consistente – profunda, maravilhosa, deslumbrante, extasiante – lucidez.

(Questão de ordem; vênia máxima: em vez de menosprezarmos os engenhos do pensamento, deslumbrados que somos-estamos pela excentricidade oriental, por que não o elevarmos também à justa condição de sublime dom)?

O transe – ao menos o que me interessa [aquele em cuja existência acredito] – é apanágio e desdobramento prático do talento. Não está fora; mas bem dentro. Sem mistérios. E, apesar de claro-claríssimo, não é fácil; tampouco para qualquer um... (Ou a rapaziada andará pensando – concentrando-se – muito por aí)? O transe, este, humano, não excede ou extrapola; mas preenche, ocupa, mobiliza, vitaliza – dispõe e explora as possibilidades todas do corpo. (Glorificada seja a matéria!; louvada, a cultura ocidental)! O transe – resultado de um poderoso esforço de concentração – é coisa do homem, de um homem vivo, acordado, desperto, educado, informado, não raro genial [não raro Pelé], mas sempre homem. O transe – este que constrói e cria coisas belas e emocionantes – é conquista do homem, de seu autoconhecimento, de seus mecanismos de abstração, de seus instrumentos intelectuais e de sua capacidade de exercitar e mobilizar o pensamento, que submete o corpo e transcende em gols, em mil gols. (Ou em música ou em poesia ou em arquitetura etc.).

O talento é o transe. O transe é o talento. Tanto faz. Ambos são humanos, e ambos – atenção – pisam firme no chão.

Veja-se, por outro exemplo, Marisa Monte. Nem lhe sou especial fã, desgosto do que compõe, registre-se, mas lhe reconheço um talento raro para cantar. O leitor faça o seguinte exercício, por favor: procure um vídeo de uma entrevista da cantora e, em seguida, o de uma sua apresentação. Compare-os. São indivíduos – é incrível – distintos; são vozes outras! Como não? Ouça bem... É impressionante. Não fosse pela figura coincidente – é de fato Marisa Monte quem está ali, tanto na entrevista quanto no palco – e afirmaria sempre tratar-se de pessoas diferentes, de vozes diversas; porque ela, uma vez em ação, transfigura-se: a voz se transtorna, o timbre, a respiração, a divisão rítmica, o próprio gestual se altera, a maneira como se move... É um transe, inegavelmente um transe; mas nada transcendente, nada desligado do corpo, dos sentidos, da consciência etc., antes consequência de um talento formidável governado-condicionado pelo pensamento, pela concentração rigorosa, pelo treino, pela técnica, pelo domínio da técnica. É nisso que acredito; a rigor, no homem, nos homens – é nisso que acredito.

O transe resulta... Não é onanismo sob cobertas [cujo os méritos, infinitos e atemporais, não discuto], mas sensibilidade provocada, percepção aguçada, madura, que ganha curso, atividade, coletividade, que reproduz, que possui existência prática, finalidades, responsabilidades, expectativas e consequências não raro públicas. O transe entra em campo, em cena, sobe ao palco... Produz. É isso [esta cadeia orgânica, cotidiana] o que me compraz ante, por exemplo, a regência de um maestro: a dissolução de barreiras entre ele e a música, o modo fluente como o controle – racional, rígido – daquele ofício metódico deságua em leveza e enlevação; em arte. Como não ver transe ali, concentração e transe, consciência e transe, compromisso e transe, talento e transe, inspiração e transe, se o movimento da música logo é movimento do corpo e – por que não? – convulsão? (E o maestro – pasmem! – está acordado, atento, alerta; ligadíssimo)! (Oh)!

Estive uma vez – destinado a entrevistá-lo – na casa de um importante escritor brasileiro. Marcamos às 10h. Não nos conhecíamos, embora apresentados – tempos antes – por um amigo comum. Fui pontual. Toquei a campainha e ele mesmo, agitado e sem palavra, recebeu-me, sinalizando – com um gesto – para que o acompanhasse. Entramos então num escritório acanhado, apertado, sem janelas, com cheiro de charuto entalhado nas madeiras, e repleto de livros. (Uma biblioteca, ora, eventual tabacaria – e também uma possível definição de paraíso). Com novo sinal, e ainda sem palavra, indicou-me onde sentar, e lançou-se a uma outra cadeira, defronte a um computador castigado, de onde o podia ver de perfil. Estava transtornado, talvez que em meio a uma construção mental, quiçá lançado à engenharia de alguma frase-ideia; nunca saberei. Estava – isto, acima de qualquer especulação – poderosamente concentrado; em transe, como não?, batendo enfurecido nas teclas e – olhar injetado – perfeitamente ilhado a [em] si, onde e como, ignorando-me, a mim como ao mundo, permaneceu escrevendo, vidrado, por quase três horas, ao fim das quais, fitando-me, perguntou sorridente: “O senhor também é torcedor do Império Serrano, não?”

terça-feira, 31 de maio de 2011

Colégio São Bento

E o Colégio São Bento, hein?

Protegendo covardemente o aluno de cartorze anos que espancou [com o auxílio de cúmplices ainda mais protegidos] um de seis; isso sem mencionar o fato grotesco de que nenhum inspetor ou funcionário da escola surgiu para defender e/ou socorrer a vítima... (Leia a notícia aqui). Instituição asquerosa, de ambiente degradante e cultura moral omissa, que estimula a violência, a trapaça e a deslealdade entre crianças - e que, portanto, impõe a lembrança deste meu texto-memória de 2008:

AQUI

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Francisco Bosco: ele bate escanteio e vai para área cabecear

Conforme longamente prometido [eu apenas esperava por que a edição fosse recolhida das bancas], vai abaixo o perfil de Francisco Bosco que escrevi para a revista Go Where Rio, e que ficou, modestamente, bem bacana:

Aqui está Francisco Bosco, cara raríssimo: ao mesmo tempo pensador [rigoroso] e carioca, este oximoro geográfico quase incontornável!, jovem intelectual cujas ideias e questões parecem fluir com a mesma naturalidade [com o mesmo dinamismo] como as expressa; alguém capaz de alternar, sem afetação e em segundos, referências a Flaubert com a confissão de que acabara de assistir, horas antes da entrevista, a um filme dos Três Patetas. “Tenho um repertório de interesses multidisciplinar, ou, se preferir, indisciplinado” – diz, para então abrir um sorriso de João Bosco.

Sim, Francisco é filho de João, o famoso cantor e compositor, de quem já foi até parceiro. “Parei de fazer letra de música, segui caminhos diversos, mas, entre outras coisas bacanas, aquele período de parceria com meu pai reinventou nossa relação e nos aguçou afinidades. Somos muito próximos, amigos mesmo. Tenho profundo interesse pelo que ele pensa e fala e, nos últimos anos, acho que ele também por minhas ideias.”

Não resisto a chamá-lo de Rimbaud brasileiro – e isso, nada tragicamente, no melhor dos sentidos. Afinal, é impossível escrever sobre Francisco sem lhe admirar a precocidade; a fabulosa ânsia produtiva – uma corrida contra o [próprio] tempo. Quanto coisa já criou, caramba! – é o que me ocorre. Aos 34 anos, é um ex-letrista de música popular, e se permite, autor já de sete livros, a renegar três, os três primeiros, de poesia. “São obras muito ingênuas, que produzi aos 18, 19 anos” – avalia o hoje colunista de O Globo, que vem de lançar o quarto livro de ensaios, o excelente E livre seja este infortúnio [Azougue Editorial], título emprestado, não à toa, de um verso de Rimbaud. É também, pois, um ex-poeta, ao menos formalmente. Gosta, entretanto, que o vejam como um poeta que escreve conceitos: “Gosto de me ver – é um compromisso meu – numa situação artística permanente; aquele para quem nenhum lugar da realidade deve ser estranho”.

Eis Francisco Bosco: um artista, um artista pleno; alguém que não distingue vida e trabalho – “Vida de pensador não tem dentro e fora” – e que possui a qualidade dos grandes observadores, a mais simples, qual seja, a de observar-contemplar-examinar sempre, o tempo todo, sem esforço e sem precisar distanciar-se.

Ele transita – assim mesmo, sem complementos. Escreve – fala, pensa... – de um lugar de fronteira, em movimento. É um semiólogo; um mediador de discursos, não raro árbitro, porque, ora, há também os choques... Recorre, por exemplo, a uma perspectiva psicanalítica para tratar de canção popular; vale-se de literatura para discutir sexualidade – e por aí vai. “O que faço é uma teoria concreta, uma reflexão que seja ligada à vida. Não me interesso pelo que se afasta da realidade. Quero saber dos problemas, do que nos diz respeito, do que tem implicação cotidiana. Fujo desta overdose de transcendência. Não gosto de conceitos que não nos permitem remontar problemas” – esta última frase, chave para o universo de Francisco.

É um escritor de muitos recursos, um baita ensaísta, da invulgar estirpe dos que conjugam curiosidade e perfeccionismo, um perseguidor incansável de temas e de abordagens originais; mas que não depende da prosa para dar seu recado. Fala bem, muito bem, com clareza e uma notável capacidade de expor a construção do raciocínio, e se vale de recursos teatrais – pausas mais ou menos longas e gracejos de respiração – para pontuar o discurso. Pensador mais instigante de sua geração, é sempre didático e se lança – generoso – aos mais numerosos [e bem-humorados] exemplos para ilustrar uma ideia. Erudito, quer ser compreendido, entendido; quer ser acessível – e não mede esforços para tanto.
Com sucesso.

Encontrei-o no Instituto Moreira Salles, na Gávea, onde coordena, desde dezembro de 2009, a Rádio Batuta, web rádio que investiga, interpreta e divulga, por meio de programas temáticos, o acervo – cerca de 30 mil fonogramas – de música brasileira da casa. Era tarde de uma segunda-feira de verão inclemente e estávamos sob um céu em que não se contava nuvem. Francisco, porém, pontual e em boa forma [pratica pilates há sete anos e é assíduo dançarino de salão], apresentou-se de modo impecável, com visual moderno, detalhadamente despojado – e parecia trazer um ar-condicionado interior. Estava dedicado a nos deixar à vontade. Com êxito. Boa pinta, antecipou-se gentilmente ao fotógrafo para lhe pedir que explorasse o único ângulo – uma determinada posição – em que se considera fotogênico. Não era vaidade; antes o estabelecimento franco e camarada de uma cumplicidade, que de resto quebrava gelos.

Talvez que não seja exatamente um tímido. Não é. Há nele, contudo, uma constante discrição, uma reserva [moral] perene – algo incomum a esses tempos exibidos. Ou quiçá seja mesmo esta a atitude – a leveza – de um artista legítimo, a que não estamos acostumados. “Sou um cara anti-social e me acho sem-graça, incapaz dessa coisa nossa de papo-furado. À noite, entretanto, com meia dúzia de chopes, ou com uns uísques, fico adorável e carismático”.

É um homem de amigos, dos amigos, e diz que só se sente à vontade entre seus íntimos: “A amizade facilidade muito as coisas pra mim”. Casado com a escritora Antonia Pellegrino, com quem mora na Lagoa, é um apaixonado: “Não me sinto qualificado para falar de casamento de modo geral; não mesmo. Sou casado com a minha mulher. Simples assim. O casamento, por princípio, é uma instituição das piores. Mas há, porém, a minha mulher, e a minha mulher é extraordinária. Sou completamente admirado por ela. Acho que dei sorte. Com base em minha experiência privada, no entanto, se tivesse de propor algo sobre casamento, seria mais ou menos a seguinte questão: que mundo o outro possui e em que este mundo pode me ajudar a crescer?”

É preciso ler o e ouvir Francisco Bosco.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Carta aberta aos meus

Tomo a liberdade de reproduzir na íntegra o texto - cujo título nomeia este post - publicado ontem por Eduardo Goldenberg em seu blog, o Buteco do Edu [aqui], e não porque seja [é] de uma dignidade extrema, de uma humanidade incontornável, de uma beleza urgente, mas porque alguém, uma pessoa boa, querida, precisa de ajuda.

Assim, a quem puder ajudar, a quem puder doar sangue em nome de Danielli Pureza [conforme indicado no texto abaixo], a minha gratidão.


Eis-me aqui, às 16h35min desta quarta-feira chuvosa, diante do monitor e chovendo mais que a chuva que cai lá fora de tanto que choro. Jamais toquei nesse assunto publicamente, não ao menos de forma direta, porque eu entendo – até mesmo porque aprendi demais nesses anos de profundo enfrentamento – que a dor de cada um é absolutamente particular, íntima, indivisível e instransferível. Mais que isso, dá-me engulhos a simples idéia de imaginar que alguém, quem quer que seja, diante de uma exposição mais clara, ponha-me na conta do piegas. Aprendi, também, que é preciso ter, sempre, em meio ao que vivo, ânimo, dignidade e coragem. Agradeço aos deuses, diariamente, por enfrentar, como enfrento há mais de 3 anos, a situação que a vida pôs no meu colo. Melhor dizendo: no colo da mulher que desde 1999 dá-me o colo que me sustenta.

Não é mole – e ninguém faz idéia do quanto, aprendi isso também… – ver a pessoa que escolhemos, sofrendo diante de um revés de saúde. Eu já havia vivido situações similares com gente próxima. Sempre fui daqueles de bater no ombro e dizer “conte comigo, eu sei o que você está passando…”. Elas sempre puderam contar comigo – mesmo! – mas eu nunca soube o que elas estavam passando (como ainda não sei… a dor é sempre particular, íntima, indivisível e instransferível). Feito esse breve intróito, vamos ao que quero lhes dizer, que eu não vou escorregar e dar de fazer chorumela sobre isso!

Sou filho de Ogum, é no lombo do meu cavalo que eu guerreio, e vocês não têm nada que ficar ouvindo arengas pouco produtivas!

Hoje, por recomendação médica, minha menina, dona do mais bonito e luminoso sorriso que pode haver, precisou fazer uma transfusão de sangue. Pediu-me, pouco antes de eu sair de casa – profissional autônomo tem dessas coisas… – que eu tentasse conseguir doadores pra ela, sangue O+. Mais que isso, por conta das exigências da clínica, que eu conseguisse doadores de qualquer tipo sanguíneo…

Pois fui ao twitter… e quantas vezes, durante as últimas eleições falei sobre o poder impressionante dessa ferramenta…

Deu-se o seguinte: em questão de poucos minutos meu apelo foi ganhando espaço (através do conhecido RT, que repica as informações passadas pelos usuários) e eu fui, diante de todo esse movimento, um homem em estado de graça diante das manifestações de carinho e de solidariedade, sobretudo solidariedade.

Leio muito por aí frases – eu mesmo, vira-e-mexe, mando uma dessas… – dando conta de que o mundo acabou, de que a humanidade fracassou, de que não há mais jeito, por aí. Não é verdade.

São quase cinco da tarde, o nome da minha menina – Danielli Pureza – está nos trending topics do twitter, muita gente foi doar sangue, muita gente prometeu que doará amanhã, e eu não posso atribuir tudo isso a nada que não seja a desgastadíssima palavra “amor”.

Somos gente, somos de carne, osso, sangue e alma (sou um crente absoluto quanto a isso), e ainda que não coloquemos a alma nesse cadinho (respeito, profundamente, os céticos) somos capazes de gestos como esse que hoje, foi por um triz!, quase me derrubou de tanta emoção.

Vai, por isso, esse texto. Na intenção de cada um de vocês, que me lêem, gente que me conhece, gente que não me conhece, gente que me quer bem, gente que nem tanto, gente que - sabe-se lá o por quê! – abraça uma idéia, um pedido, que se fia na fiança de um mais próximo, que acredita e que faz acontecer.

Seria impossível, por óbvio, agradecer a cada um dos milhares que nos ajudaram, a mim e à minha menina, nessa batalha de hoje. Batalha que – tomem nota! – continua até sábado, ao menos para nosso específico caso. Até sábado, das 08h às 16h, doações de qualquer tipo de sangue são mais que bem-vindas no Hematologistas Associados, na rua Conde de Irajá 183, em Botafogo, fone (21) 2537-7440, em nome de Danielli Pureza.

Vai por isso, esse texto, esse agradecimento, esse manifesto de absoluta gratidão. O que vocês fizeram comigo hoje, e eu choro de esguichar, como uma vaca – pra manter o nível Tijuca da confissão! – , foi um tremendo cafuné, um carinho no rosto de barba branca que teima em sorrir e agradecer por tudo. Muito obrigado, do fundo do meu mais-que-baqueado coração tijucano.

Até.
[Eduardo Goldenberg; "Carta aberta aos meus". Em: Buteco do Edu]

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O Amarello #5 - lançamento no Rio


Será no próximo sábado - dia 21 de maio, a partir das 16h - o lançamento carioca da quinta edição do fanzine O Amarello, de que sou, uma vez mais, colaborador entusiasmado. (Apenas a título de ilustração, a revista é impressa na mesma gráfica - e com o mesmo cuidado artesanal - em que imprimo meus livros de arte)... Trata-se de uma excelente oportunidade para o povo do Rio conhecer esta publicação verdadeiramente esmerada, cuja distribuição é gratuita, e ainda tomar umas cervejas geladíssimas - e igualmente de graça.

Estarei lá às 16h03. Estão todos convidados!

Ah, sim: o fanzine é temático e este número - que resultou bem consistente - é dedicado ao transe.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Eleições no Império: por que Átila

[Texto publicado também no site Galeria do Samba]


Uma escola de samba - uma que se pretenda a tal - não pode jamais perder a perspectiva de sua humanidade, isto porque, em essência, é seu povo que a define, perpetua e lhe dá caráter; porque, antes e acima de tudo, uma escola de samba é aquela gente que, nascida ali ou não, renasce em seu pavilhão, confunde-se a suas cores.

Isto é o que legitima uma escola de samba: o movimento - a entrega, a presença - dos seus.

O Império Serrano representa, no meu universo de valores afetivos, a esperança, a dignidade, a coragem, a criação, o talento, a revolução, a juventude - um conjunto de estandartes viscerais, elevados, altaneiros, que poderia resumir, pois, naqueles que, cada um a seu jeito, notabilizam-nos: Silas, Décio, Fuleiro, Molequinho, Eulália, Ivone Lara, Roberto Ribeiro, Aloísio Machado, Beto Sem-Braço, Rachel Valença, Jorginho, Arlindo, Mestre Átila... Sim, Átila dos Santos Gomes Nascimento: ao mesmo tempo passado, presente e futuro desta história.

O leitor compreende?

Não se trata de uma linha evolutiva com ganas de perfeição etc., mas da afirmação histórica de uma estirpe imprescindível, de uma frondosa cepa: a dos grandes imperianos, que nunca - mesmo nos momentos de maior dificuldade - nos faltaram. E é por isso - uma vez que o Império se prepara para mais um evento decisivo, que põe em jogo seu porvir - que me parece absolutamente natural, orgânica, a candidatura de Átila, cria e glória da escola, e é por isso que todo meu entusiasmo ora se dedica à sua eleição; porque traz por sentido [por norte] um Império Serrano que se comporte como Império Serrano, ousado, responsável, rejuvenescido, arejado, auto-referente.

Minha paixão pelo Império Serrano tem uma cláusula pétrea: o orgulho. Nunca, nos já quinze carnavais em que desfilei pela escola, entrei na avenida com uma convicção senão a da vitória; porque sempre considerei - e considero - este seu destino incontornável, fundamental. Vencer.

E isto - este sentimento, esta confiança, esta intimidade sanguínea com o triunfo - não pode mudar.

A palavra de ordem "Átila tocou reunir" - com todas as mensagens que desperta e impõe - tem sobre mim o efeito de uma convocação pátria; mobiliza-me as mais nacionalistas paixões cívicas, e me faz crer e apostar na superação de um fantasma que já me assombrava: o jeitinho, o improviso, as soluções com base em favor e compadrio, a acomodação, a resignação ante desfiles medíocres e colocações vergonhosas, assim como se ao Império Serrano fosse facultado o direito de desfilar por desfilar.

Com o passar dos anos, a noção de planejamento - de estrutura, de projeto em longo prazo - tornou-se quase maldita, algo inatingível para a agremiação; e é por isso também que saúdo confiante o tripé que sustenta a candidatura de Átila à presidência, o qual, aliás, já aplicou, com deslumbrante sucesso, à bateria: profissionalismo, gestão e resultado; porque não se bota verdadeiramente uma escola como o Império na Sapucaí apenas com abnegação e amor; porque, sinto muito, só amor não basta.

Átila sabe o caminho, e não à toa foi escolhido para liderar um movimento jovem, que encarna um modelo administrativo empresarial, que olha para frente sem jamais descuidar das tradições; um movimento que quer valorizar e realçar, por meio de um trabalho consistente e estruturado, as tradições imperianas - para que possam ser não tudo o que temos, mas aquilo que faz a diferença, a carta na manga, o pulo-do-gato, a chancela decisiva, a patente que desempata. É sob este espírito, portanto, que leio a notícia de que, eleito, Átila trará o experiente [e experimentado] carnavalesco Mauro Quintaes, o puxador Nêgo e coreógrafo Carlinhos de Jesus, a base técnica de segurança e apuro para o desenvolvimento do enredo de nossos sonhos, aquele que nos cativa pela raiz: a urgente homenagem a Dona Ivone Lara.

Não há outra direção - outro equilíbrio - para que o Império Serrano respeite sua vocação e reconquiste a passarela das glórias.

Minhas palavras - atenção - não são de desdouro aos demais concorrentes, que têm valor e serviços prestados à agremiação, mas um chamado a percebermos que não é simplesmente uma eleição o que vemos no horizonte, bem antes a possibilidade de uma guinada, de um outro tempo, de um novo tempo, algo maior... Um Império que volte a olhar para si com altivez; um Império que afinal some trabalho planejado ao amor desmedido; um Império que lance mão dos seus para - estruturando-se profissionalmente, com consistência técnica - ser ainda mais Império.

Àqueles que julguem isso tudo conversa fiada, convido a que observem a campanha eleitoral em curso e a postura positiva - propositiva, respeitosa, democrática, livre de caça às bruxas e de golpismos - como se apresenta a candidatura de Átila. Tem-se aí dado, sempre, determinante, incondicional, o pressuposto que nos distingue e une, bem maior do que o fato de sermos adversários e não inimigos: o de que somos - todos, hoje, amanhã e depois, eleitos ou não - imperianos.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

O Amarello #5

  

Será neste sábado [30 de abril], em São Paulo - vide o convite acima -, o lançamento da quinta edição do fanzine O Amarello, desta vez dedicado ao tema "transe". Sou um dos colaboradores, com um texto que pretende desconstruir a ideia convencional de transe como cousa do inconsciente. Acho que ficou bacana. Abaixo, um trecho:
(...) O transe – ao menos o que me interessa [aquele em cuja existência acredito] – é apanágio e desdobramento prático do talento. Não está fora; mas bem dentro. Sem mistérios. E, apesar de claro-claríssimo, não é fácil; tampouco para qualquer um... (Ou a rapaziada andará pensando – concentrando-se – muito por aí)? O transe, este, humano, não excede ou extrapola; mas preenche, ocupa, mobiliza, vitaliza – dispõe e explora as possibilidades todas do corpo. (Glorificada seja a matéria!; louvada, a cultura ocidental)! O transe – resultado de um poderoso esforço de concentração – é coisa do homem, de um homem vivo, acordado, desperto, educado, informado, não raro genial [não raro Pelé], mas sempre homem. O transe – este que constrói e cria coisas belas e emocionantes – é conquista do homem, de seu autoconhecimento, de seus mecanismos de abstração, de seus instrumentos intelectuais e de sua capacidade de exercitar e mobilizar o pensamento, que submete o corpo e transcende em gols, em mil gols. (Ou em música ou em poesia ou em arquitetura etc.). (...)